domingo, 8 de setembro de 2024

A Letra na Canção

Objetivo do módulo: 

OBJETO: a canção como arte, como objeto estético; não como produto mercadológico.

A letra em FOCO: subsídios para perceber / criar a letra como forma poética em suas particularidades.

METODOLOGIA: análise de letras da MPB, dando a perceber seus recursos expressivos, suas estruturas e efeitos retóricos, a partir de  escolhas formais e valores que se querem veicular.

Em suma: um estudo ethopoético da canção brasileira


PRELIMINARES

1. A escolha do ethos

Leiamos este excerto de Maingueneau:

Todo discurso, oral ou escrito, supõe um ethos: implica uma certa representação do corpo do seu responsável, do enunciador que se responsabiliza por ele. Sua fala participa de um comportamento global (uma maneira de se mover, de se vestir, de entrar em relação com o outro...). Atribuímos a ele, dessa forma, um caráter, um conjunto de traços psicológicos (jovial, severo, simpático...) e uma corporalidade (um conjunto de traços físicos e indumentários). “Caráter” e “corporalidade” são inseparáveis, apoiam-se em estereótipos valorizados ou desvalorizados na coletividade, em que se produz a enunciação. (...) O ethos não deve, portanto, ser isolado dos outros parâmetros do discurso, pois contribui de maneira decisiva para sua legitimação. (Termos-chave da Análise do Discurso. Belo Horizonte: UFMG, 2006)

O Ethos confere a credibilidade do orador ou escritor. Para envolver a audiência em um tema específico, a pessoa que apresenta a informação deve primeiro se estabelecer como alguém confiável, ou como alguém que tenha muita experiência no assunto. Isso é o que define, na figura que enuncia, a sua ética .

Mas atenção! assumir um ethos na voz é idêntico ao que faz um ator, quando encarna uma personagem. É preciso aprender a fingir!

Ethos apela para:
  • A identidade do sujeito que fala
  • Posicionamento axiológico (valores)
  • Consistência
  • Percepção de confiabilidade





Dor Elegante

Um homem com uma dor
É muito mais elegante

Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Andasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, edens, analgésicos
Não me toquem nessa dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

(Itamar Assumpção e Paulo Leminski)





Quando você menos esperaEla chega (quando você menos espera)(Ela chega)Fazendo do teu coração (quando você menos espera)O que bem ela fizer (ela chega, fazendo do teu coração)(O que bem ela fizer)
Nem venha querendo você se espantarNão, não, não, não, não (o que bem ela fizer)Nem venha querendo você se espantarNão, não, não, não, não
Nem venha querendo você se espantarNão, não, não, não, nãoNem venha querendo você se espantarNão, não, não, não, não
Nem venha querendo você se espantar (quando você)(Menos espera) Não, não, não, não, nãoEla (nem venha querendo você se espantar, quando você)
Menos espera, ela toca(Quando você) No fundo do teu coração(Menos espera) Assim como uma mulher(Ela toca) No fundo do teu coração
Assim como uma mulher(No fundo do teu coração, nem venha querendo você se espantar)(Não, não, não, não, não) Assim como uma mulher
Nem venha querendo você se espantarNão, não, não, não, nãoNem venha querendo você se espantarNão, não, não, não, não
Nem venha querendo você se espantarNão, não, não, não, nãoNem venha querendo você se espantarNão, não, não, não, não
Nem venha querendo você se espantarNão, não, não, não, não






Umbigo

Umbigo, meu nome é umbigo Gosto muito de conversar comigo Umbigo, meu nome é espelho Não dou ouvidos, nem peço conselhos
Umbigo, meu nome é certeza Só é real o que convém a realeza Umbigo, meu nome é verdade Sou o dono do mundo e o rei da cidade Umbigo, meu nome é umbigo... Umbigo, meu nome é umbigo... Eu sou mais eu! Dê cá um close no narciso Umbigo, meu nome é umbigo Me peça tudo, só não peça para ter juízo Umbigo, meu nome é umbigo Não sei de nada além de mim: o amor é cego
Umbigo, meu nome é umbigo Vivo na sombra e água fresca do meu ego Eu vou andando, e quem quiser que acerte o passo Faça o que eu digo, e eu me concentro no que faço Se um dia o mundo pegar fogo eu salto antes E dou adeus a seis bilhões de figurantes
Umbigo, meu nome é umbigo Quem está contra mim também está comigo Umbigo, meu nome é guru Eu caí do céu foi pra mandar em tu
Umbigo meu nome é umbigo O mundo perde o freio, e eu nem ligo Comigo só não vai quem já morreu Umbigo, meu nome sou eu

(Lenine)



Em entrevista à FSP, sobre o lançamento de Falange Canibal, o compositor comenta a faixa:

Atacando temas que margeiam a vaidade e o ego de sua classe (e de outras), ele se apressa em se posicionar, entre ofensivo e defensivo: "Várias pessoas podem vestir a carapuça do "Umbigo", mas eu fiz essa canção só para mim. Isso vem de meu pai socialista, que muitas vezes me disse: "Cuidado, olha o que você está fazendo". É um auto-exorcismo".

Diz que o exorcismo funciona e vai além da peça de retórica de afirmar o ego negando-o. "Funciona. Lidar com exibição o artista lida, sempre. Eu lido, mas atenção, vou só até a página oito. É verdade que uma canção que fala do ego de cada um é um discurso prepotente, um subterfúgio. Não me acho egocêntrico, mas egoísta eu sou, sim. O ego é um ícone, estou dentro dele, não estou escapando por essa canção."


2. O apelo do Pathos
O pathos acessa as emoções e as crenças profundamente arraigadas do público para atraí-las ao assunto. Pathos muitas vezes faz com que o público se sinta como se tivesse uma participação pessoal na informação que está sendo fornecida e é frequentemente o catalisador que os leva à ação.
Pathos apela para:

  • Emoções e sentimentos
  • Preconceitos 
  • Sonhos
  • Motivações



Atrás da porta

     (Chico Buarque / Francis Hime)

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus,
Juro que não acreditei
Eu te estranhei, me debrucei
Sobre o teu corpo e duvidei
E me arrastei, e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
Nos teus pelos, teu pijama
Nos teus pés, ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua
Até provar que ainda sou tua
(Chico Buarque)



Sujeito de sorte

Presentemente, eu posso me
Considerar um sujeito de sorte
Porque apesar de muito moço
Me sinto são, e salvo, e forte

E tenho comigo pensado
Deus é Brasileiro e anda do meu lado
E assim já não posso sofrer
No ano passado

Tenho sangrado demais
Tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri
Mas esse ano eu não morro

Tenho sangrado demais
Tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri
Mas esse ano eu não morro

Ano passado eu morri
Mas esse ano eu não morro
Ano passado eu morri
Mas esse ano eu não morro
(Antonio Carlos Belchior)

3. A força argumentativa do Logos

Logos usa lógica, raciocínio, evidência e fatos para apoiar um argumento. O logos atrai o lado mais racional das mentes do público e fornece suporte para o assunto. Estratégias de logos podem ser usadas para fortalecer o impacto que o pathos tem sobre o público.

Logos utiliza:

  • Evidência
  • Testemunho
  • Raciocínio lógico
  • Estatísticas e Dados




Fora da ordem

Vapor barato, um mero serviçal do narcotráfico
Foi encontrado na ruína de uma escola em construção
Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína
Tudo é menino e menina no olho da rua
O asfalto, a ponte o viaduto ganindo pra lua
Nada continua
E o cano da pistola que as crianças mordem
Reflete todas as cores da paisagem da cidade que é muito
Mais bonita e
Muito mais intensa do que no cartão postal
Alguma coisa está fora da ordem
Fora da nova ordem mundial...
Escuras coxas duras tuas duas de acrobata mulata
Tua batata da perna moderna, a trupe intrépida em que fluis
Te encontro em Sampa de onde mal se vê quem sobe ou desce a rampa
Alguma coisa em nossa transa é quase luz forte demais
Parece pôr tudo à prova, parece fogo, parece, parece paz
Parece paz
Pletora de alegria, um show de Jorge Benjor dentro de nós
É muito, é grande, é total
Alguma coisa está fora da ordem
Fora da nova ordem mundial...
Meu canto esconde-se como um bando de Ianomâmis na floresta
Na minha testa caem, vêm colocar-se plumas de um velho cocar
Estou de pé em cima do monte de imundo lixo baiano
Cuspo chicletes do ódio no esgoto exposto do Leblon
Mas retribuo a piscadela do garoto de frete do Trianon
Eu sei o que é bom
Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem
Apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final
Alguma coisa está fora da ordem
Fora da nova ordem mundial...

(Caetano Veloso)


O cancionista se encontra entre dois extremos, a saber:

Performance ---------------------------------------------------  Pensamento
Imagem --------------------------------------------------------- Ideia
Sonoridade -----------------------------------------------------  Abstração



Canção e fingimento

Origens da canção
As origens da canção, em língua portuguesa, se confundem com as origens da poesia e da própria língua. Tudo começa no Trovadorismo: desde o século XII,  a arte da canção era arte de trovar.
Trovar < fr. "achar"
O étimo aponta para uma técnica que conta com certa dose de improviso, de intuição.


Nunca se sabe como ou por onde começa  a feitura da canção: se por uma ideia, por uma frase musical, pelo refrão, pela última estrofe... Trata-se de um achamento, algo que depende de uma conexão com uma força criativa - essa ideia teria originado o mito da musa inspiradora.

A canção nasce de uma necessidade de dizer algo. Para que se diga, é necessário adotar o fingimento de uma situação que engendra a fala.

A cantiga de amigo é uma tradição surgida de uma carência essencial diante do abandono.
Esse mote serviu à canção popular de todos os tempos:


A cantiga abaixo expressa a situação de fragilidade em que se encontra o ser apaixonado que sofreu
abandono. É a situação de quem está entregue à própria sorte:


    

 Ai Deus, se sab'ora meu amigo
com'eu senheira estou em Vigo!
       E vou namorada...

Ai Deus, se sab'ora meu amado

5com'eu em Vigo senheira manho!
       E vou namorada...
  
Com'eu senheira estou em Vigo

e nulhas gardas nom hei comigo!
       E vou namorada...
  
10Com'eu senheira em Vigo manho
e nulhas gardas migo nom traigo!
       E vou namorada...
  
E nulhas gardas nom hei comigo,

ergas meus olhos que choram migo!
15       E vou namorada...
  
E nulhas gardas migo nom traigo,
ergas meus olhos que choram ambos!
       E vou namorada...





O sentido trágico da canção

Arte que tenta abarcar dois mundos:
  • um mundo mais corporal, intuitivo - também matemático - da música;
  • e o mundo das ideias que a composição dispõe, agrupa e costura, em direção à produção de um sentido

Canção: uma arte dialética por excelência

Música ----------------------------- Palavra
Intuitiva, corporal --------------- pensamento, racionalidade
Sentido (vago, ilimitado) -------- limite do significado
Sensação --------------------------- ideia

A essência infinita da música não cabe no espaço do poema.
Acometido pela musicalidade como sensação pura, o poeta soma o melódico ao harmônico, descreve.
A cadeia temporal-melódica suscita imagens e, já no papel, a sensação procura pelo nome.
Neste percurso do infinito ao limitado, o nome debate-se para transcender seus limites, quer-se vasto, da vastidão do símbolo ou da metáfora mais (im)precisa.


A poesia, no caso, a canção, é uma busca compensatória dessa nossa involuntária divisão, um sentido trágico dado ao nome.
Sua busca de significação alude ao velho e humano conflito entre Natureza e Cultura; entre instinto e palavra. Uma busca de retorno àquela através desta, quando esta só mais separa.

Comparem-se as duas composições que se seguem:




Alguém cantando

Alguém cantando longe daqui
Alguém cantando longe, longe
Alguém cantando muito
Alguém cantando bem
Alguém cantando é bom de se ouvir
Alguém cantando alguma canção
A voz de alguém nessa imensidão
A voz de alguém que canta
A voz de um certo alguém
Que canta como que pra ninguém
A voz de alguém quando vem do coração
De quem mantém toda a pureza
Da natureza
Onde não há pecado nem perdão



Ela canta, pobre ceifeira,

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões para cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente está pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa