A LETRA NA CANÇÃO

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Aula 4: A canção em cena


Canção Desnecessária Guinga e Mauro Aguiar Enlace o meu silêncio E valse a valsa avessa Que te fiz em pranto. É valsa em si contrária. Só pisando em falso Se pressente o chão. A música ilusória Quase te atravessa Sem você dar conta. E tanta antimatéria Sem querer se apossa Do seu coração. Esqueça o tempo então E valse um sentimento Por dentro a valsa esquece o som Extemporânea Imaginária Etérea como o amor Até quem sabe o Grande Amor! Amor que vem na valsa Mas que só se confessa Quando a valsa cessa Amor. Abrace o precipício E valse a valsa imersa Num silêncio insano. É valsa involuntária mansa em seu ofício de soar em vão. Canção desnecessária Quase sempre acessa Seu fundo oceano. Se você perde o senso Nasce na memória Súbito salão. Esqueça o tempo então E valse um sentimento Por dentro a valsa esquece o som Extemporânea Imaginária Etérea como o amor Até quem sabe o Grande Amor! Amor que vem na valsa Mas que só se confessa Quando a valsa cessa Amor. A sorte está lançada A valsa está cansada Logo vai cessar. No próximo compasso Vai sumir no espaço Vai se dissipar! Enlace o universo E valse a valsa imensa Que te fiz sonhando. Por mais que não pareça nessa valsa avessa Pulsa um coração.


A metalinguagem tem sido muito frequente na artes em geral. Percebe-se uma intensificação de sua presença no século XX, desde o modernismo à contemporaneidade. 

Hoje é possível dizer que a dobra da linguagem artística existe como tendência geral de autorreflexão de toda obra.
Muitos manuais atribuem a autorreferencialidade a um
esgotamento temático da vida moderna, reificada e dirigida pela indústria cultural.

Entretanto, hoje é possível dizer que a metalinguagem se atribui a uma consciência geral de que a arte não representa um mundo fora dela; antes, ela cria a sua própria realidade através de regras e valores que ela está sempre a renovar.

Toda obra precisa inaugurar, experimentar suas estratégias para a apresentação do mundo. Por isso importa sempre refletir sobre suas potencialidades e limites. 
O homem contemporâneo, o artista contemporâneo é aquele que sabe que o mundo é linguagem, na linguagem. 

Trata-se da "glorificação da própria linguagem, contrariamente à função referencial do discurso ordinário. A escrita [e isso vale também para a canção] torna-se espetáculo." 
(José Augusto Mourão)


Nem sempre o que se expõe, com a metacanção, é uma relação de paixão pelo objeto:





Demônios

Não me reprima
eu mesmo mato os meus demônios
saia de cima, eu não aguento

esse rebento natimorto
esse samba torto
é só meu
em um aborto minh'alma concebeu

cada minuto
me envelhece outra semana
não sou um fruto proibido
mas fui ferido na cabeça
antes que eu me esqueça
saia daqui
desapareça com seu dom de existir

cego, sem rumo consigo ver
que o prumo muda de lugar
tenho a fé de nunca crer
pra teu amor exorcizar

quero distância de ti
a dez mil léguas daqui
grito assim num sussurro pra você ouvir

João Cavalcanti



Pensar a canção, as estratégias de composição, os temas, ritmos e o ethos que marcam um estilo são a matéria da metacanção. Por séculos, essa atitude foi uma conversa íntima do poeta com a sua musa. 

A MUSA

Sim, tem a inspiração, mas não só ela. Paul Valéry
disse que os deuses dão o primeiro verso. Os
outros o poeta tem que criar. E eu digo que o
santo baixa sim. Mas só um pedaço. A gente tem que
puxar o santo pelos pés pra ele vir inteiro.
                          (Mário Quintana)          


MUSA CRUZA






A minha musa
Cruza o rio de canoa
Cruza o mundo quando voa
Cruza os mares meio à toa
Cruza e mesmo que não queira
Cruza as linhas de fronteira
Cruza com qualquer pessoa
Cruza e logo se afeiçoa
Minha musa é musa
Que se aperfeiçoa
Vai atrás
Pra quem pede
Sopra mais o seu perfume
Agora inspira todos
Mudou muito o seu costume

A minha musa
Cruza a faixa dos quarenta
Cruza os braços quando enfrenta
Cruza as pernas quando senta
Cruza os dedos quando tenta
Cruza os dados se suspeita
Cruza as mãos quando se deita
Cruza as coxas e aproveita
Minha musa é musa
Nunca satisfeita
Vai atrás
Pra quem pede
Sopra mais o seu perfume
Agora inspira tantos
Que já me causou ciúme

Luiz Tatit


Na nossa MPB, há musas muito sofisticadas. De modo que a conversa entre poeta e musa às vezes se torna profundamente técnica (mas isso só vale se a beleza, ou uma noção autoconsciente do BELO estiver presente).
Falando de suas estratégias, a canção abaixo decanta a dor e a delícia de ser o que é. 



Nesta melodia em que me perco
Quem sabe talvez um dia
Ainda te encontre minha musa
Confusa

Esta estrada me escorre no peito
E tão sem jeito
Se desenha entre as estrelas da galáxia
Em fucxia

Bússolas não há na cor dos versos
Usam como senha tons perversos
Busco a trilha certa, matematicamente
Só sei brincar de cabra cega
Errática chega

Neste descaminho meu carinho
Te percorre a ausência
Corpo, alma, tudo, nada
Musa
Difusa

O sorriso do gato de Alice
Se se visse
Não seria menos ou mais intocável
Que o teu véu

Pausa de fração de semifusa
Pode conter tão grande tristeza
Busco o estilo exato

A tática eficaz
Do rock ao jazz
Do lied ao samba
Ao brega
Errática chega


                                  (Caetano Veloso)


Até aqui, é sempre a voz do compositor (assim o eu-lírico se assume) quem faz a dobra e a comenta. 
Por vezes, a letra finge uma reflexão que se dá no mesmo momento em que a canção é cantada. Como se o canto se pensasse e se fizesse consciente de si enquanto acontece. Essa coincidência entre o fazer e o pensar o que se está fazendo traz à canção um caráter performático.

Vejam os exemplos abaixo:



        
 Escurississimo

apareço no escuro
apareço no escuro
apareço no escuro
apareço nu

apareço no escuro
por ser
escuríssimo

escuríssimo
escurissíssimo
escurississíssimo
escurissississíssimo
escurissississississi....

(Arnaldo Antunes)




Ah!
Não pode usar qualquer palavra
Então é por isso que não dava
Eu tentava, repetia, achava lindo e colocava
Se não cabe, se não pode
Tem que trocar de palavra
Ah!
Mas é tão boa essa palavra
Carregada de sentido com um som tão delicado
Agora eu vou ter que trocar?
Ah! Vá se danar
Ah! Tem que caber?
Ah! Ninguém repara
Ah! Tem que entender?
Ah! Mas tá na cara
Então muda?!?
Han... han...
Hum
Chiiii
Ai ai ai ai ai ai ai
Han?
Haa tá
Nossa!
É isso?!
Hei!
Hou!
Ara!
Ah!
Ah!

Luiz Tatit




E há ainda os compositores que criam pensando na performance do canto, criando uma situação (ideal, imaginária) em que o intérprete canta e pensa, ao mesmo tempo, na canção que executa. Propõe, assim, um duplo fingimento, um duplo desafio:





O compositor me disse que eu cantasse distraidamente
Essa canção
Que eu cantasse como se o vento soprasse pela boca
Vindo do pulmão
E que eu ficasse ao lado pra escutar o vento jogando as palavras
Pelo ar
O compositor me disse que eu cantasse ligada no vento
Sem ligar
Pras coisas que ele quis dizer
Que eu não pensasse em mim nem em você
Que eu cantasse distraidamente como bate o coração
E que eu parasse aqui
Assim.
                                                  (Gilberto Gil)

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domingo, 22 de setembro de 2024

Modelos Composição

 Os modelos abaixo são suportes estruturais que podem ser modificados, as palavras podem ser substituídas e as partes suprimidas e /ou deslocadas.

Os autores podem fazer outra proposta diferente de todas essas. Vale tudo!

Valendo-se de um processo em trio ou em dupla, os alunos devem gravar um arquivo sonoro ou de video com sua letra (cantando, com ou sem acompanhamento instrumental) e enviar para um drive criado para essa reunião.  É importante que anexem a letra também, para que, na última aula, todos possam ler e sugerir alterações; as letras serão analisadas por ordem de chegada. 


Aí vão algumas estruturas:

Modelo 1

Parte A
E se...
E se...
E se...
E se...

Parte B
Eu vou...
(...)

Parte A
E se...
E se...
E se...
E se...

Parte B2
Você vai...
(...)

(sugestão: em vez de repetir A e B,
pode cruzar os versos, criando um jogo)


Modelo 2

Parte A
O meu mundo
O teu mundo
Nosso mundo 
Nós sozinhos
Eu sozinho
Tu sem ...
Eu sem ...
Tu sem mais
Nós assim

Parte B
Chega de
chega ...
chega ...
chega enfim ...


Modelo 3

Parte A
Porque...
porque...
porque ...
porque...

Parte B
João quis...
João fez...
João foi...
João...

Parte A
Porque...
porque...
porque ...
porque...

Parte B2
Eu não...
eu menti...
eu saí...
eu...


Modelo 4

Parte A
Pra que a gente 
Pra que o tempo
Pra que...
Pra que...

Parte B
Decidiram
resolveram
esconderam
proibiram
dissolveram

Parte A
Mas a gente
Sempre
Apesar de
Vai que a gente

Parte B
Decidiram
resolveram
esconderam
proibiram
dissolveram


Modelo 5

Parte A
Esses caras
Não percebem
Não carecem
Não...

Parte A
Esses caras
Só
Só
Só...

Parte B
Minha cara...
Tua cara...
Nossa cara...
Todo mundo...

Parte A ou B
Olha ...
Veja ...
Se é bom
Se convém


Modelo 6

Naquele dia...
Fulana vivia
Eu bem sabia...
Mas era já...
Pensei comigo
Depois de dias
Depois ainda
Foi
Eu só
Mas ela
Não tinha jeito
Só...
Só...

Refrão
Daí
Daí
Daí
Daí


Modelo 7

Essa canção não é...
E se parece...
Não que seja
Ela só quer

Essa canção que fiz
A fim de...
Para...
Mas

Essa canção só...
Tem a medida...
Toda...
Mas...

Essa canção eu...
Sabe...
Leva...
Vai...


MODELO 8

Antes a gente...
Agora a gente...

Antes a gente...
Mas hoje....

Antes a gente...
Agora ninguém...

Antes a gente...
Hoje ninguém...

Agora eu acho que a gente...
Agora a gente era...
Agora a gente sonhava...


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terça-feira, 17 de setembro de 2024

Aula 3: a canção narrativa

A canção narrativa relata um fato, um acontecimento, uma experiência vivida e/ou testemunhada por uma voz a quem chamamos de NARRADOR.

Esse mundo da reportagem é uma prática de distensão e entretenimento: 
Alguém assume o controle da vida por nós, organizando um mundo para nós: a narrativa coloca-nos comumente numa posição de conforto e relaxamento, já que, como ouvintes, nos eximimos do esforço de representar, compreender e dar um sentido para a vida.



    

Geni

De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Co'os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geleia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo –- Mudei de ideia

– Quando vi nesta cidade
– Tanto horror e iniquidade
– Resolvi tudo explodir
– Mas posso evitar o drama
– Se aquela formosa dama
– Esta noite me servir
Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
– e isso era segredo dela –
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni

Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni 

Chico Buarque/1977-1978
Para a peça Ópera do malandro, de Chico Buarque
Descrição: http://www.chicobuarque.com.br/img/ponto_verde.gif


Toda narrativa procura indiciar as circunstâncias de uma experiência, respondendo a questões básicas como Quando? Onde? Quem? O quê? Como? Por quê?, procurando organizá-la de algum modo na linha do tempo.




São duas horas da madrugada de um dia assim
um velho anda de terno velho assim assim
quando aparece o Guarda Belo
quando aparece o Guarda Belo

É posto em cena fazendo cena um treco assim
bem apontado ao nariz chato assim assim
Quando aparece a cor do velho
Quando aparece a cor do velho

Mas Guarda Belo não acredita na cor assim
ele decide o terno velho assim assim
porque ele quer o velho assado
porque ele quer o velho assado

mas mesmo assim o velho morre assim assim
e o Guarda Belo é o herói assim assado
por que é preciso ser assim assado
por que é preciso ser assim assado
                                                         (Secos e Molhados)



O narrador é uma espécie de sábio

Segundo Walter Benjamim, a narrativa é uma arte em vias de extinção: "são cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente", assim como é cada vez mais rara a "faculdade de intercambiar experiências", devido a uma processo de crescente individualização desencadeado pelos modos de produção da sociedade moderna, o esvaziamento do espaço público, a relativização dos valores, a crescente perda da capacidade de ouvir...

O narrador é alguém que fala exemplarmente. 
Ele tem, segundo Bakhtin, um "excedente de visão e conhecimento", o que lhe confere uma certa sabedoria, uma autoridade para organizar e emitir um valor sobre a experiência narrada.

O narrador é, sempre, uma posição axiológica.
A narrativa tem  uma dimensão utilitária, que pode consistir num ensinamento moral, numa sugestão prática para a vida, na sabedoria de um provérbio, numa norma de vida a ser ensinada pela experiência - de qualquer maneira, o narrador é um homem que se arroga a dar conselhos.

Entretanto: a narrativa não tem a obrigação de explicar nada, mas fecundar, apontar caminhos, mostrar possibilidades de resolução dos problemas, ensina a agir, a reagir, a enfrentar os medos...

O grande narrador, segundo Benjamim, tem sempre suas raízes no povo, principalmente nas camadas artesanais.



Eu um dia cansado que eu tava
Da fome que eu tinha
Eu não tinha nada
Que fome que eu tinha,
Que seca danada no meu ceará
Eu peguei e juntei
Um restinho de coisa que eu tinha:
Duas calça velha e uma violinha
E num pau de arara
Toquei para cá.
E de noite eu ficava na praia de Copacabana
Zazando na praia de Copacabana
Dançando o xaxado pras moças olhá

Virgem santa
Que a fome era tanta
Que nem voz eu tinha
Meu deus quanta moça
Que fome que eu tinha
Mais fome que eu tinha no meu ceará
Puxa vida num tinha uma vida
Pior do que a minha
Que vida danada, que fome que eu tinha
Zazando na praia pra lá e pra cá

Quando eu via toda aquela gente
No come que come
Eu juro que eu tinha saudades da fome
Da fome que eu tinha no meu Ceará

E aí eu pegava e cantava
E dançava o xaxado
E só conseguia porque no xaxado
A gente só pode mesmo se arrastá.

Virgem santa
Que a fome era tanta
Qu'inté parecia que mesmo xaxando
Meu corpo subia
Igual se tivesse querendo voar.

Vou-me embora pro meu Ceará
Porque lá tenho um nome
Aqui não sou nada
Sou só zé com fome
Sou só pau de arara
Nem sei mais cantá

Vou picar minha mula
Vou antes que tudo rebente
Porque estou achando que o tempo está quente
Pior do que antes não pode ficar.

(Zélia Barbosa)











Baião Atemporal

No último pau-de-arara de Irará

Um da família Santana viajará
Levará uma semana até chegar
Junto com mais dois ou três outros cabras que estarão lá
No último pau-de-arara de Irará

Se essa viagem comprida fosse um cordel
Seria boa saída acabar no céu
Só que este conto que eu canto é pra lá de zen
Não tem sentido, não serve pra nada e é pra ninguém
Pra ninguém botar defeito e não ter porém

Basta pensar que Irará poderá não ser
Que os paus-de-arara de lá já não têm porquê
Porque os tempos passaram e passarão
Tudo que começa acaba, e outros cabras seguirão
Cruzando o atemporal do tao do baião
                                                                            (Gilberto Gil)



O cancionista narrador pode brincar com os circunstantes - tempo, espaço, modo, intensidade etc - de maneira que a história a contar exerça um efeito de estranhamento sobre o ouvinte. Esse efeito provoca um retardamento do nosso olhar ou entendimento da situação, chamando-nos para um sentido oculto no texto.

Para Chklovski, : “A finalidade da arte é dar uma sensação do objecto como visão e não como reconhecimento; o processo da arte é o processo de singularização [ostraniene] dos objetos e o processo que consiste em obscurecer a forma, em aumentar a dificuldade e a duração da percepção. O ato de percepção em arte é um fim em si e deve ser prolongado; a arte é um meio de sentir o devir do objecto, aquilo que já se ‘tornou’ não interessa à arte.” (ibid., p.82). O estranhamento seria então esse efeito especial criado pela obra de arte literária para nos distanciar (ou estranhar) em relação ao modo comum como apreendemos o mundo, o que nos permitiria entrar numa dimensão nova, só visível pelo olhar estético ou artístico.
(Viktor Chklovski em “Iskusstvo kak priem” (“A arte como processo”), ensaio publicado na segunda edição da Poetika, 1917)


Reparemos nas canções narrativas que se seguem:





Vou te vi
Ali deserta de qualquer alguém
Penso, logo irei
Que seja antes minha que de outrem
Quando o vento fez do teu vestido
Um dom que Deus te deu
Claro que eu rirei
Ao vendo o que outro alguém não viu


Vou andei
E me chegando assim te cercarei
Digo, aqui tô eu
Que te amo e às tuas pernas quero bem
Já que estamos nós
Te sugeri-me então o que fazer
Claro que eu beijei
Ao tendo o que outro alguém não quis
E tudo isso
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Foi na hora em que eu te vi
E mais que tudo
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Na hora em que eu te quis
Vou fiquei
No teu chegado e tu chegada ao meu
Penso, grande é Deus
Um paraíso prum sujeito ateu
E pensando assim
Farei aquilo que o teu gosto quis
Claro, eu já ganhei de volta
Tudo o que eu quiser
E tudo isso
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Foi na hora em que eu te vi
E mais que tudo
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Na hora em que eu te quis

(Vitor Ramil)







Da maior importância


Foi um pequeno momento, um jeito
Uma coisa assim
Era um movimento que aí você não pode mais
Gostar de mim direito
Teria sido na praia, medo
Vai ser um erro
Uma palavra, a palavra errada
Nada, nada
Basta nada, nada
E eu já quase não gosto e já nem gosto
Do jeito que de repente você foi olhada por nós
Porque eu sou tímido e teve um negócio
De você perguntar o meu signo
Quando não havia signo nenhum
Escorpião, Sagitário, não sei que lá
Ficou um papo de otário, um papo
Ia sendo bom
É tão difícil, tão simples, difícil, tão fácil
De repente ser uma coisa tão grande
Da maior importância
Deve haver uma transa qualquer pra você e pra mim
Entre nós
E você jogando fora e agora vá embora, vá
Deve haver um jeito qualquer, uma hora
Há sempre um homem para uma mulher
Há dez mulheres para cada um
Uma mulher é sempre uma mulher, etc. e tal
Assim como existe disco voador e o escuro do futuro
Pode haver no que está dependendo
De um pequeno momento puro de amor
Mas você não teve pique e agora não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique, você não teve pique
E agora não sou eu quem vai lhe dizer que fique
Mas você não teve pique e agora não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique, não sou eu quem vai
Você não teve pique
Não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique
Não sou eu quem vai
Não sou eu quem vai lhe dizer que você não teve pique
Não sou eu   

(Caetano Veloso)      




Guia

Atravessei o oceano
Sem o teu amor de guia
Só o tempo no meu bolso
E o vento que me seguia

Venci colinas de lágrimas
Desertos de água fria
Tempestades de lembranças
Mas tu já não me querias mais, mais
Tu já não me querias mais

Procurei a terra firme
Em cada onda que subia
O sol cegava meus olhos
Toda a noite eu te perdia

Lá dentro no pensamento
Virou tudo nostalgia
Água, sal e sofrimento
Porque tu não me querias mais
Tu não me querias mais

Já era Agosto, quando acordei na praia
E vi chegar a primavera, fiz nova cama de flores
Lembrei de todas as cores, cantei baixinho pra elas

Hoje falo em segredo, nessa paixão esquecida
Pra não acordar saudade, pra não despertar o medo,
Pois um amor de verdade, sonha pró resto da vida.

Mas tu já não me querias mais,
Tu já não me querias mais...
Tu já não me querias mais...

(Antonio Azambujo)





Cira, Regina e Nana

Resultados da pesquisa

Principais resultados

Antes o meu coração tocava só pra Cira
Antes é que o meu cordão batia só pra Cira
Antes o meu coração tocava só pra Cira
Antes é que o meu cordão batia só pra Cira
Ela era tão bonita que ensandecia a tropa
Evocava o meu olhar que orbitava à sua volta
Mas quando apertava a tecla nunca trocava a nota
O encanto bateu botas e eu vazei daquela festa
Agora o meu coração toca pra Regina
Agora é que o meu cordão bate pra Regina
Agora o meu coração toca pra Regina
Agora é que meu cordão bate pra Regina
Ela é a moça certa carregando aquela tocha
Recitando poesia e me ensinando sobre a Pérsia
Mesmo sendo tão prolixa e digna de nota
Não contava anedota e eu fugi como uma besta
Agora o meu coração toca no vazio
Agora é que meu cordão não queima nem pavio
Não existe data certa, conta ou alguma reza
O cupido quando acerta o acaso lhe reserva
Não é por desmerecer nem dizer que a fila anda
Mas agora vou falar do meu amor
Agora eu vou falar
Eu vou falar de Nana, Nana, Nana
Agora eu vou cantar
Eu vou cantar pra Nana
Agora eu vou falar
Eu vou falar de Nana, Nana, Nana
Agora eu vou cantar pra Nana
Pra Nana (vou cantar pra Nana)

(Lucas Santana)


Às vezes, a própria música, pelo desenvolvimento da melodia, já é uma narração...


A Rã (João Gilberto)

Depoimento de João Donato à FSP, ao comentar o Álbum de 1972







Coro de cor
Sombra de som de cor
De mal me quer
De mal me quer de bem
De bem me diz
De me dizendo assim
Serei feliz
Serei feliz de flor
De flor em flor
De samba em samba em som
De vai e vem
De verde verde ver
Pé de capim
Bico de pena pio
De bem te vi
Amanhecendo sim
Perto de mim
Perto da claridade
Da manhã
A grama a lama tudo
É minha irmã
A rama o sapo o salto
De uma rã

João Donato / [João Gilberto] / Caetano Veloso







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