Canção Desnecessária Guinga e Mauro Aguiar Enlace o meu silêncio E valse a valsa avessa Que te fiz em pranto. É valsa em si contrária. Só pisando em falso Se pressente o chão. A música ilusória Quase te atravessa Sem você dar conta. E tanta antimatéria Sem querer se apossa Do seu coração. Esqueça o tempo então E valse um sentimento Por dentro a valsa esquece o som Extemporânea Imaginária Etérea como o amor Até quem sabe o Grande Amor! Amor que vem na valsa Mas que só se confessa Quando a valsa cessa Amor. Abrace o precipício E valse a valsa imersa Num silêncio insano. É valsa involuntária mansa em seu ofício de soar em vão. Canção desnecessária Quase sempre acessa Seu fundo oceano. Se você perde o senso Nasce na memória Súbito salão. Esqueça o tempo então E valse um sentimento Por dentro a valsa esquece o som Extemporânea Imaginária Etérea como o amor Até quem sabe o Grande Amor! Amor que vem na valsa Mas que só se confessa Quando a valsa cessa Amor. A sorte está lançada A valsa está cansada Logo vai cessar. No próximo compasso Vai sumir no espaço Vai se dissipar! Enlace o universo E valse a valsa imensa Que te fiz sonhando. Por mais que não pareça nessa valsa avessa Pulsa um coração.
A metalinguagem tem sido muito frequente na artes em
geral. Percebe-se uma intensificação de sua presença no século XX, desde o
modernismo à contemporaneidade.
Hoje é possível dizer que a dobra da linguagem artística
existe como tendência geral de autorreflexão de toda obra.
Muitos manuais atribuem a autorreferencialidade a um
esgotamento temático da vida moderna, reificada e
dirigida pela indústria cultural.
Entretanto, hoje é possível dizer que a metalinguagem se atribui a uma
consciência geral de que a arte não representa um mundo fora dela;
antes, ela cria a sua própria realidade através de regras e valores que ela está sempre a
renovar.
Toda obra precisa inaugurar, experimentar suas estratégias para a
apresentação do mundo. Por isso importa sempre refletir sobre
suas potencialidades e limites.
O homem contemporâneo, o artista contemporâneo é
aquele que sabe que o mundo é linguagem, na linguagem.
Trata-se da "glorificação da própria linguagem,
contrariamente à função referencial do discurso ordinário. A escrita [e
isso vale também para a canção] torna-se espetáculo."
(José Augusto Mourão)
Nem sempre o que se expõe, com a metacanção, é uma relação de paixão pelo objeto:
Demônios
Não me reprima
eu mesmo mato os meus demônios
saia de cima, eu não aguento
esse rebento natimorto
esse samba torto
é só meu
em um aborto minh'alma concebeu
cada minuto
me envelhece outra semana
não sou um fruto proibido
mas fui ferido na cabeça
antes que eu me esqueça
saia daqui
desapareça com seu dom de existir
cego, sem rumo consigo ver
que o prumo muda de lugar
tenho a fé de nunca crer
pra teu amor exorcizar
quero distância de ti
a dez mil léguas daqui
grito assim num sussurro pra você ouvir
João Cavalcanti
Pensar a canção, as estratégias de composição, os temas, ritmos e o ethos que marcam um estilo são a matéria da metacanção. Por séculos, essa atitude foi uma conversa íntima do poeta com a sua musa.
A MUSA
disse que os deuses dão o primeiro verso. Os
outros o poeta tem que criar. E eu digo que o
santo baixa sim. Mas só um pedaço. A gente tem que
puxar o santo pelos pés pra ele vir inteiro.
(Mário Quintana)
MUSA CRUZA
A minha musa
Cruza o rio de canoa
Cruza o mundo quando voa
Cruza os mares meio à toa
Cruza e mesmo que não queira
Cruza as linhas de fronteira
Cruza com qualquer pessoa
Cruza e logo se afeiçoa
Minha musa é musa
Que se aperfeiçoa
Vai atrás
Pra quem pede
Sopra mais o seu perfume
Agora inspira todos
Mudou muito o seu costume
A minha musa
Cruza a faixa dos quarenta
Cruza os braços quando enfrenta
Cruza as pernas quando senta
Cruza os dedos quando tenta
Cruza os dados se suspeita
Cruza as mãos quando se deita
Cruza as coxas e aproveita
Minha musa é musa
Nunca satisfeita
Vai atrás
Pra quem pede
Sopra mais o seu perfume
Agora inspira tantos
Que já me causou ciúme
Luiz Tatit
Na nossa MPB, há musas muito sofisticadas. De modo que a conversa entre poeta e musa às vezes se torna profundamente técnica (mas isso só vale se a beleza, ou uma noção autoconsciente do BELO estiver presente).
Falando de suas estratégias, a canção abaixo decanta a dor e a delícia de ser o que é.
Quem sabe talvez um dia
Ainda te encontre minha musa
Confusa
Esta estrada me escorre no peito
E tão sem jeito
Se desenha entre as estrelas da galáxia
Em fucxia
Bússolas não há na cor dos versos
Usam como senha tons perversos
Busco a trilha certa, matematicamente
Só sei brincar de cabra cega
Errática chega
Neste descaminho meu carinho
Te percorre a ausência
Corpo, alma, tudo, nada
Musa
Difusa
O sorriso do gato de Alice
Se se visse
Não seria menos ou mais intocável
Que o teu véu
Pausa de fração de semifusa
Pode conter tão grande tristeza
Busco o estilo exato
A tática eficaz
Do rock ao jazz
Do lied ao samba
Ao brega
Errática chega
(Caetano Veloso)
Por vezes, a letra finge uma reflexão que se dá no mesmo momento em que a canção é cantada. Como se o canto se pensasse e se fizesse consciente de si enquanto acontece. Essa coincidência entre o fazer e o pensar o que se está fazendo traz à canção um caráter performático.
Vejam os exemplos abaixo:
Escurississimo
apareço no escuro
apareço no escuro
apareço no escuro
apareço nu
apareço no escuro
por ser
escuríssimo
escuríssimo
escurissíssimo
escurississíssimo
escurissississíssimo
escurissississississi....
apareço no escuro
apareço no escuro
apareço no escuro
apareço nu
apareço no escuro
por ser
escuríssimo
escuríssimo
escurissíssimo
escurississíssimo
escurissississíssimo
escurissississississi....
(Arnaldo Antunes)
Ah!
Não pode usar qualquer palavra
Então é por isso que não dava
Eu tentava, repetia, achava lindo e colocava
Se não cabe, se não pode
Tem que trocar de palavra
Ah!
Mas é tão boa essa palavra
Carregada de sentido com um som tão delicado
Agora eu vou ter que trocar?
Ah! Vá se danar
Ah! Tem que caber?
Ah! Ninguém repara
Ah! Tem que entender?
Ah! Mas tá na cara
Então muda?!?
Han... han...
Hum
Chiiii
Ai ai ai ai ai ai ai
Han?
Haa tá
Nossa!
É isso?!
Hei!
Hou!
Ara!
Ah!
Ah!
Então é por isso que não dava
Eu tentava, repetia, achava lindo e colocava
Se não cabe, se não pode
Tem que trocar de palavra
Ah!
Mas é tão boa essa palavra
Carregada de sentido com um som tão delicado
Agora eu vou ter que trocar?
Ah! Vá se danar
Ah! Tem que caber?
Ah! Ninguém repara
Ah! Tem que entender?
Ah! Mas tá na cara
Então muda?!?
Han... han...
Hum
Chiiii
Ai ai ai ai ai ai ai
Han?
Haa tá
Nossa!
É isso?!
Hei!
Hou!
Ara!
Ah!
Ah!
Luiz Tatit
E há ainda os compositores que criam pensando na performance do canto, criando uma situação (ideal, imaginária) em que o intérprete canta e pensa, ao mesmo tempo, na canção que executa. Propõe, assim, um duplo fingimento, um duplo desafio:
O compositor me disse que eu cantasse distraidamente
Essa canção
Que eu cantasse como se o vento soprasse pela boca
Vindo do pulmão
E que eu ficasse ao lado pra escutar o vento jogando as palavras
Pelo ar
O compositor me disse que eu cantasse ligada no vento
Sem ligar
Pras coisas que ele quis dizer
Que eu não pensasse em mim nem em você
Que eu cantasse distraidamente como bate o coração
E que eu parasse aqui
Assim.
(Gilberto Gil)
Sem ligar
Pras coisas que ele quis dizer
Que eu não pensasse em mim nem em você
Que eu cantasse distraidamente como bate o coração
E que eu parasse aqui
Assim.
(Gilberto Gil)
a canção "Ah!", soa bem performática, inclusive o proprio arranjo com os metais lembra os ah´s. Gostei.
ResponderEliminarPois é, quando a palavra e o som se confundem: a palavra chama a atenção para o seu som; os metais ganham os sentidos da interjeição Ah!
EliminarEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarLilian, os modelos de canções já estão disponíveis? Não consegui acessar.
ResponderEliminarGente, peço desculpas. Eu abri o acesso aos modelos na semana da aula, mas demorei 3 dias... Ainda assim, se alguém tiver dificuldade de acesso, por favor, deixe aqui seu protesto.
ResponderEliminar