A LETRA NA CANÇÃO

terça-feira, 17 de setembro de 2024

Aula 3: a canção narrativa

A canção narrativa relata um fato, um acontecimento, uma experiência vivida e/ou testemunhada por uma voz a quem chamamos de NARRADOR.

Esse mundo da reportagem é uma prática de distensão e entretenimento: 
Alguém assume o controle da vida por nós, organizando um mundo para nós: a narrativa coloca-nos comumente numa posição de conforto e relaxamento, já que, como ouvintes, nos eximimos do esforço de representar, compreender e dar um sentido para a vida.



    

Geni

De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Co'os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geleia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo –- Mudei de ideia

– Quando vi nesta cidade
– Tanto horror e iniquidade
– Resolvi tudo explodir
– Mas posso evitar o drama
– Se aquela formosa dama
– Esta noite me servir
Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
– e isso era segredo dela –
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni

Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni 

Chico Buarque/1977-1978
Para a peça Ópera do malandro, de Chico Buarque
Descrição: http://www.chicobuarque.com.br/img/ponto_verde.gif


Toda narrativa procura indiciar as circunstâncias de uma experiência, respondendo a questões básicas como Quando? Onde? Quem? O quê? Como? Por quê?, procurando organizá-la de algum modo na linha do tempo.




São duas horas da madrugada de um dia assim
um velho anda de terno velho assim assim
quando aparece o Guarda Belo
quando aparece o Guarda Belo

É posto em cena fazendo cena um treco assim
bem apontado ao nariz chato assim assim
Quando aparece a cor do velho
Quando aparece a cor do velho

Mas Guarda Belo não acredita na cor assim
ele decide o terno velho assim assim
porque ele quer o velho assado
porque ele quer o velho assado

mas mesmo assim o velho morre assim assim
e o Guarda Belo é o herói assim assado
por que é preciso ser assim assado
por que é preciso ser assim assado
                                                         (Secos e Molhados)



O narrador é uma espécie de sábio

Segundo Walter Benjamim, a narrativa é uma arte em vias de extinção: "são cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente", assim como é cada vez mais rara a "faculdade de intercambiar experiências", devido a uma processo de crescente individualização desencadeado pelos modos de produção da sociedade moderna, o esvaziamento do espaço público, a relativização dos valores, a crescente perda da capacidade de ouvir...

O narrador é alguém que fala exemplarmente. 
Ele tem, segundo Bakhtin, um "excedente de visão e conhecimento", o que lhe confere uma certa sabedoria, uma autoridade para organizar e emitir um valor sobre a experiência narrada.

O narrador é, sempre, uma posição axiológica.
A narrativa tem  uma dimensão utilitária, que pode consistir num ensinamento moral, numa sugestão prática para a vida, na sabedoria de um provérbio, numa norma de vida a ser ensinada pela experiência - de qualquer maneira, o narrador é um homem que se arroga a dar conselhos.

Entretanto: a narrativa não tem a obrigação de explicar nada, mas fecundar, apontar caminhos, mostrar possibilidades de resolução dos problemas, ensina a agir, a reagir, a enfrentar os medos...

O grande narrador, segundo Benjamim, tem sempre suas raízes no povo, principalmente nas camadas artesanais.



Eu um dia cansado que eu tava
Da fome que eu tinha
Eu não tinha nada
Que fome que eu tinha,
Que seca danada no meu ceará
Eu peguei e juntei
Um restinho de coisa que eu tinha:
Duas calça velha e uma violinha
E num pau de arara
Toquei para cá.
E de noite eu ficava na praia de Copacabana
Zazando na praia de Copacabana
Dançando o xaxado pras moças olhá

Virgem santa
Que a fome era tanta
Que nem voz eu tinha
Meu deus quanta moça
Que fome que eu tinha
Mais fome que eu tinha no meu ceará
Puxa vida num tinha uma vida
Pior do que a minha
Que vida danada, que fome que eu tinha
Zazando na praia pra lá e pra cá

Quando eu via toda aquela gente
No come que come
Eu juro que eu tinha saudades da fome
Da fome que eu tinha no meu Ceará

E aí eu pegava e cantava
E dançava o xaxado
E só conseguia porque no xaxado
A gente só pode mesmo se arrastá.

Virgem santa
Que a fome era tanta
Qu'inté parecia que mesmo xaxando
Meu corpo subia
Igual se tivesse querendo voar.

Vou-me embora pro meu Ceará
Porque lá tenho um nome
Aqui não sou nada
Sou só zé com fome
Sou só pau de arara
Nem sei mais cantá

Vou picar minha mula
Vou antes que tudo rebente
Porque estou achando que o tempo está quente
Pior do que antes não pode ficar.

(Zélia Barbosa)











Baião Atemporal

No último pau-de-arara de Irará

Um da família Santana viajará
Levará uma semana até chegar
Junto com mais dois ou três outros cabras que estarão lá
No último pau-de-arara de Irará

Se essa viagem comprida fosse um cordel
Seria boa saída acabar no céu
Só que este conto que eu canto é pra lá de zen
Não tem sentido, não serve pra nada e é pra ninguém
Pra ninguém botar defeito e não ter porém

Basta pensar que Irará poderá não ser
Que os paus-de-arara de lá já não têm porquê
Porque os tempos passaram e passarão
Tudo que começa acaba, e outros cabras seguirão
Cruzando o atemporal do tao do baião
                                                                            (Gilberto Gil)



O cancionista narrador pode brincar com os circunstantes - tempo, espaço, modo, intensidade etc - de maneira que a história a contar exerça um efeito de estranhamento sobre o ouvinte. Esse efeito provoca um retardamento do nosso olhar ou entendimento da situação, chamando-nos para um sentido oculto no texto.

Para Chklovski, : “A finalidade da arte é dar uma sensação do objecto como visão e não como reconhecimento; o processo da arte é o processo de singularização [ostraniene] dos objetos e o processo que consiste em obscurecer a forma, em aumentar a dificuldade e a duração da percepção. O ato de percepção em arte é um fim em si e deve ser prolongado; a arte é um meio de sentir o devir do objecto, aquilo que já se ‘tornou’ não interessa à arte.” (ibid., p.82). O estranhamento seria então esse efeito especial criado pela obra de arte literária para nos distanciar (ou estranhar) em relação ao modo comum como apreendemos o mundo, o que nos permitiria entrar numa dimensão nova, só visível pelo olhar estético ou artístico.
(Viktor Chklovski em “Iskusstvo kak priem” (“A arte como processo”), ensaio publicado na segunda edição da Poetika, 1917)


Reparemos nas canções narrativas que se seguem:





Vou te vi
Ali deserta de qualquer alguém
Penso, logo irei
Que seja antes minha que de outrem
Quando o vento fez do teu vestido
Um dom que Deus te deu
Claro que eu rirei
Ao vendo o que outro alguém não viu


Vou andei
E me chegando assim te cercarei
Digo, aqui tô eu
Que te amo e às tuas pernas quero bem
Já que estamos nós
Te sugeri-me então o que fazer
Claro que eu beijei
Ao tendo o que outro alguém não quis
E tudo isso
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Foi na hora em que eu te vi
E mais que tudo
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Na hora em que eu te quis
Vou fiquei
No teu chegado e tu chegada ao meu
Penso, grande é Deus
Um paraíso prum sujeito ateu
E pensando assim
Farei aquilo que o teu gosto quis
Claro, eu já ganhei de volta
Tudo o que eu quiser
E tudo isso
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Foi na hora em que eu te vi
E mais que tudo
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Na hora em que eu te quis

(Vitor Ramil)







Da maior importância


Foi um pequeno momento, um jeito
Uma coisa assim
Era um movimento que aí você não pode mais
Gostar de mim direito
Teria sido na praia, medo
Vai ser um erro
Uma palavra, a palavra errada
Nada, nada
Basta nada, nada
E eu já quase não gosto e já nem gosto
Do jeito que de repente você foi olhada por nós
Porque eu sou tímido e teve um negócio
De você perguntar o meu signo
Quando não havia signo nenhum
Escorpião, Sagitário, não sei que lá
Ficou um papo de otário, um papo
Ia sendo bom
É tão difícil, tão simples, difícil, tão fácil
De repente ser uma coisa tão grande
Da maior importância
Deve haver uma transa qualquer pra você e pra mim
Entre nós
E você jogando fora e agora vá embora, vá
Deve haver um jeito qualquer, uma hora
Há sempre um homem para uma mulher
Há dez mulheres para cada um
Uma mulher é sempre uma mulher, etc. e tal
Assim como existe disco voador e o escuro do futuro
Pode haver no que está dependendo
De um pequeno momento puro de amor
Mas você não teve pique e agora não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique, você não teve pique
E agora não sou eu quem vai lhe dizer que fique
Mas você não teve pique e agora não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique, não sou eu quem vai
Você não teve pique
Não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique
Não sou eu quem vai
Não sou eu quem vai lhe dizer que você não teve pique
Não sou eu   

(Caetano Veloso)      




Guia

Atravessei o oceano
Sem o teu amor de guia
Só o tempo no meu bolso
E o vento que me seguia

Venci colinas de lágrimas
Desertos de água fria
Tempestades de lembranças
Mas tu já não me querias mais, mais
Tu já não me querias mais

Procurei a terra firme
Em cada onda que subia
O sol cegava meus olhos
Toda a noite eu te perdia

Lá dentro no pensamento
Virou tudo nostalgia
Água, sal e sofrimento
Porque tu não me querias mais
Tu não me querias mais

Já era Agosto, quando acordei na praia
E vi chegar a primavera, fiz nova cama de flores
Lembrei de todas as cores, cantei baixinho pra elas

Hoje falo em segredo, nessa paixão esquecida
Pra não acordar saudade, pra não despertar o medo,
Pois um amor de verdade, sonha pró resto da vida.

Mas tu já não me querias mais,
Tu já não me querias mais...
Tu já não me querias mais...

(Antonio Azambujo)





Cira, Regina e Nana

Resultados da pesquisa

Principais resultados

Antes o meu coração tocava só pra Cira
Antes é que o meu cordão batia só pra Cira
Antes o meu coração tocava só pra Cira
Antes é que o meu cordão batia só pra Cira
Ela era tão bonita que ensandecia a tropa
Evocava o meu olhar que orbitava à sua volta
Mas quando apertava a tecla nunca trocava a nota
O encanto bateu botas e eu vazei daquela festa
Agora o meu coração toca pra Regina
Agora é que o meu cordão bate pra Regina
Agora o meu coração toca pra Regina
Agora é que meu cordão bate pra Regina
Ela é a moça certa carregando aquela tocha
Recitando poesia e me ensinando sobre a Pérsia
Mesmo sendo tão prolixa e digna de nota
Não contava anedota e eu fugi como uma besta
Agora o meu coração toca no vazio
Agora é que meu cordão não queima nem pavio
Não existe data certa, conta ou alguma reza
O cupido quando acerta o acaso lhe reserva
Não é por desmerecer nem dizer que a fila anda
Mas agora vou falar do meu amor
Agora eu vou falar
Eu vou falar de Nana, Nana, Nana
Agora eu vou cantar
Eu vou cantar pra Nana
Agora eu vou falar
Eu vou falar de Nana, Nana, Nana
Agora eu vou cantar pra Nana
Pra Nana (vou cantar pra Nana)

(Lucas Santana)


Às vezes, a própria música, pelo desenvolvimento da melodia, já é uma narração...


A Rã (João Gilberto)

Depoimento de João Donato à FSP, ao comentar o Álbum de 1972







Coro de cor
Sombra de som de cor
De mal me quer
De mal me quer de bem
De bem me diz
De me dizendo assim
Serei feliz
Serei feliz de flor
De flor em flor
De samba em samba em som
De vai e vem
De verde verde ver
Pé de capim
Bico de pena pio
De bem te vi
Amanhecendo sim
Perto de mim
Perto da claridade
Da manhã
A grama a lama tudo
É minha irmã
A rama o sapo o salto
De uma rã

João Donato / [João Gilberto] / Caetano Veloso







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segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Aula 2: a canção lírica


Introdução: um poema de Hans Magnus

Tradução de Alberto Pimenta
Tradução de Alberto Pimenta




Orpheu: o mito do artista





Quando tudo faz lembrar
Guardar comigo um bem que se perdeu
Quando chove como hoje choveu
Repara bem meu bem que é para consolar
Toda dor que nada pode reparar nem poderá
Nem a luz do sol e a terra que nos faz
Girar girar
Então faz acreditar
Mesmo um segundo tudo vai voltar
Mas se arrisca teu olhar pra trás
Encara sem receio o escuro e nunca mais
Depois vai seguindo assim sob esse céu azul sem fim
E você é onde se guardou em mim       
A música



Orpheu


Não pude suportar a tua ausência, amor
Desisiti do mundo pra te resgatar
Só eu conheço a mágoa de ser quase
A súbita alegria e desencanto

Não penso com palavras resgatar você
Impossível nomear o que não está
Cantando todavia me aproximo
Da imagem que guardei no esquecimento

Eu desci dentro de mim
Onde nunca me flagrei
Era o mar ou era o rio
Esse fundo que eu olhei

Desarmado me perdi 
no lugar que eu te deixei
Era o mar ou era um rio
Eu só sei que te sonhei...

Que morte sou e desconheço
De quem o brilho que disperso 
E faço náufrago de mim?

Quem dera fosse uma fragata
E navegasse além da morte
E quem me visse, visse um ponto
O centro movel do horizonte...

Não pude suportar a tua ausência, amor
Tão pequeno é viver sem navegar
Cantando eu aprendo a ser sozinho
No canto até pareço ser um par

Desarmado eu me perdi
No lugar que te deixei
Era o mar ou era um rio
A imagem que eu olhei

Eu desci dentro de mim
Onde nunca me sonhei
Era o mar ou era um rio
Nesse fundo eu te encontrei



A arte está fora do sujeito

Para Michel Foucault, a arte acontece no exterior da subjetividade:

A palavra literária se desenvolve, se desdobra, se reduplica a partir de si própria, não como interiorização, psicologização, mas como exteriorização, passagem para fora, afastamento, distanciamento, diferenciação, fratura, dispersão com relação ao sujeito, que ela apaga, anula, exclui, despossui, fazendo aparecer um espaço vazio: o espaço de uma linguagem neutra, anônima. O aparecimento ou reaparecimento do ser da linguagem é o desaparecimento do sujeito.” 
(MACHADO, Foucault, a filosofia e a literatura)

Para Maurice Blanchot:

“O Fora está em Blanchot diretamente associado a uma concepção de imaginário. A escritura é, para ele, a própria experiência da realidade imaginária. Nela, tudo se torna imagem, isto é, tudo se desdobra em sua outra versão (...) numa linguagem imaginária, o tempo num tempo imaginário e a realidade numa realidade imaginária. (...) Para Blanchot, a imagem não é um não-ser, mas uma outra possibilidade do ser, sua outra versão.

[Mas] ao invés de tornar o objeto novamente presente, de remeter direta e posteriormente a ele - o que segundo uma concepção clássica seria a função primeira da imagem -, a imagem, segundo o autor em questão, o deixa cada vez mais ausente. O objeto não nos é dado mas, ao contrário, afastado de nós. A característica da imagem seria, então, a de afirmar as coisas em sua desaparição, a de tornar presente a ausência que as funda.” 
(Levy,Tatiana S., in: A Experiência do Fora)

"A poesia é, sobretudo, linguagem animada pela emoção, intensificada pelo ritmo e transfigurada pela metáfora."
(David Mourão Ferreira)


Pobre velha música!
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.

Recordo outro ouvir-te.
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.

Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.


(Fernando Pessoa)





João e Maria
 
Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?

(Sivuca e Chico Buarque - 1977)


A canção lírica


"O conteúdo da poesia lírica é (...) o sujeito individual e, consequentemente, as situações e os objetos particulares, assim como a maneira pela qual a alma, com seus juízos subjetivos, suas alegrias, suas admirações, suas dores e suas sensações, toma consciência de si mesma no âmago deste conteúdo.

É desse modo que se impõe a ideia normalmente difundida, ainda hoje, de que a poesia lírica tem como vocação "exprimir" os sentimentos, os estados de espírito do sujeito na sua "interioridade" e em sua "profundidade", e não a de representar o mundo "exterior" e "objetivo". O lirismo se confunde com a poesia "pessoal" e mesmo "intimista", e privilegia, assim, a introspecção meditativa, o mais das vezes em tom melancólico, como indica a moda da elegia. A subjetividade lírica, por natureza introvertida, é essencialmente narcisista. (Hegel)

(COMBE, Dominique. A referência desdobrada: O sujeito lírico entre a ficção e a autobiografia. Rev. USP, São Paulo, n. 84, fev. 2010)





Eu não sei falar de amor
Eu não sei falar de amor.
Os contadores sabem,
os profesores, os motoristas de taxi é só o que fazem
o homem com gel no cabelo esse certamente entende tudo do amor.

Eu não sei falar de amor.
Os escreventes sabem,
os despachantes, os astronautas (desses então nem se fala!)

Os operários no pátio da Ford repetem palavras de amor
Os militares preparam-se para a parada do amor
Os cegos decifram com a testa no braile do muro a palavra
AMOR

Eu não sei, eu não sei
Eu não
Eu não sei falar de amor

Nas cadeias moleculares
Na valsa do imperador
Nos olhos da avó mortinha
Da boca de quem me amou
De mim nenhuma palavra
Minha voz não se banhou
Nas águas da fonte do rio da palavra
AMOR

Kléber Albuquerque








"Eu não sou da sua rua
Eu não sou o seu vizinho
Eu moro muito longe, sozinho
Estou aqui de passagem

Eu não sou da sua rua
Eu não falo a sua língua
Minha vida é diferente da sua
Estou aqui de passagem
Esse mundo não é meu
Esse mundo não é seu"

(Branco Mello e Arnaldo Antunes - 1991)



A linguagem lírica é desordenada, antissocial



Melhor Do Que Parece 
(Tim Bernardes) 

Eu ando muito insatisfeito 
Nada me agrada mais 
Eu não consigo ouvir um disco 
Ou ver um filme e 
Um livro eu claramente não vou ler 

Vou procurar em todo canto até 
Achar onde eu perdi 
Minha vontade meu desejo, o meu prazer de conseguir 
E a paciência que eu preciso para curtir
 
Eu tenho achado tudo chato, tudo ruim 
Será que o chato aqui sou eu?
Será que fiquei viciado em novidade 
E agora o tédio me enloqueceu? 

Vou procurar em todo canto até 
Achar onde eu perdi 
Minha vontade meu desejo, o meu prazer de conseguir 
E a paciência que eu preciso para curtir

Tudo está melhor do que parece 
Eu olho e vejo tudo errado 
Faz tempo que está tudo certo


O eu que ganha voz na lírica é um eu que se determina e se exprime como oposto ao coletivo, à objetividade; (...) o eu-lírico acabou perdendo, por assim dizer, essa unidade com a natureza, e agora se empenha em restabelecê-la, pelo animismo ou pelo mergulho no próprio eu.

(...) Por isso a lírica se mostra mais profundamente assegurada, em termos sociais, ali onde não fala conforme o gosto da sociedade, ali onde não comunica nada, mas sim onde o sujeito, alcançando a expressão feliz, chega a uma sintonia com a própria linguagem, seguindo o caminho que ela mesma gostaria de seguir.


( Adorno, in "Lírica e Sociedade" )







Dia 36



Esquece, não pensa mais
lenço azul a apertar
em branco o seu pensar
toda uma vida embaça o seu olhar
e andando vê passando
tudo aquilo que errou
hoje é dia 26
quem sabe vive outra vez
ela se foi sem eu ver
um beijo a flutuar
cabelos rosas gente a se abraçar
tudo alegre indo e vindo
tudo em volta a brilhar
esquece não pensa mais
um grito ele amou
lençóis e colchas vão se encontrar
não é mais dia 26
tudo começa outra vez
um, dois, três, 26
tudo isso já ficou
a paz é forte e ele vai viver
a menina em frente quente
o amor a fez girar
hoje é dia 36
um grito ele amou
lençóis e colchas vão se encontrar
não é mais dia 36
tudo começa outra vez....
esquece não pensa mais


Sérgio Dias / Arnaldo Babtista / Rita Lee / Johnny Dandurand



A função poética na lírica, faz do sujeito um vórtice de imagens, que se projetam e criam algo que já não é ele. A canção parece uma casa estranha que ele desenhou, a partir de estilhaços de lembranças, sentimentos e sensações:



POEIRA (Nuno Ramos/ Mariana Aydar) Poeira os olhos dentro d’água Poeira as coisas que eu mostrava O bicho, a casa, a ponte, a asma O teu brinquedo dentro d’água
Levanta os ó, lindos pro céu A rosa também sofre e chora Quem tem o que eu te dei agora Manhã da manhã lá fora
Licença pra me esquecer Licença que eu dei, sonhei Um rio sem eu, rio, ninguém Um rio que eu te dei
Não sei dizer, não sei...



A canção reflexiva

A canção procura, com todos os seus recursos textuais e sonoros, comover o ouvinte (do latim commovere, “mobilizar, mover conjuntamente”, formado de com-, “junto”, mais movere, “mexer, deslocar, mover").

A lírica move em nós a conivência frente a um sentimento diante do outro ou do mundo; a narrativa nos convida a seguir os passos ou atitudes de alguém numa sequência temporal.

Mas há um sabor da canção ainda distinto dessas duas modalidades: o cancionista é também uma antena, um intérprete do mundo, um formador de opinião. Ele está atento aos acontecimentos ao redor: observa, interpreta, constrói um pensamento, disserta.

E a canção é o seu meio de compartilhar uma visão da realidade.

Esse tipo de cancionista é um tanto filósofo, um tanto crítico, uma voz política.

E o poder de difusão de suas ideias é maior do que o de qualquer tratado filosófico, político, sociológico ou o que quer que seja.

É o que veremos com  "Roda Morta", de Sérgio Sampaio.






O triste nisso tudo é tudo isso
Quer dizer, tirando nada, só me resta o compromisso
Com os dentes cariados da alegria
Com o desgosto e a agonia da manada dos normais.
O triste em tudo isso é isso tudo
A sordidez do conteúdo desses dias maquinais
E as máquinas cavando um poço fundo entre os braçais,
eu mesmo e o mundo dos salões coloniais.
Colônias de abutres colunáveis
Gaviões bem sociáveis vomitando entre os cristais
E as cristas desses galos de brinquedo
Cuja covardia e medo dão ao sol um tom lilás.
Eu vejo um mofo verde no meu fraque
E as moscas mortas no conhaque que eu herdei dos ancestrais
E as hordas de demônios quando eu durmo
Infestando o horror noturno dos meu sonhos infernais.
Eu sei que quando acordo eu visto a cara falsa e infame
como a tara do mais vil dentre os mortais
E morro quando adentro o gabinete
Onde o sócio o e o alcaguete não me deixam nunca em paz
O triste em tudo isso é que eu sei disso
Eu vivo disso e além disso
Eu quero sempre mais e mais.
(2x)
mais e mais

Sérgio Sampaio


Por vezes, o compositor adota um ethos que representa uma realidade que só ele acessa, como se estivesse em posse de uma visão privilegiada, o que dá  à canção um tom visionário:


Assista ao Grupo Corpo dançando esta canção aqui

Cego com cego

  

I
Eu vi o cego lendo a corda da viola
Cego com cego no duelo do sertão
Eu vi o cego dando nó cego na cobra
Vi cego preso na gaiola da visão
Pássaro preto voando pra muito longe
E a cabra cega enxergando a escuridão

Eu vi o pai eu vi a mãe eu vi a filha
Via novilha que é filha da novilhá
Eu vi a réplica da réplica da bíblia
Na invenção dum cantador de ciençá
Vi o cordeiro de deus num ovo vazio
Fiquei com frio te pedi pra me esquentá

Repete I

Eu via a luz da luz do preto dos seus olhos
Quando o sertão num mar de flor esfloresceu
Sol parabelo parabelo sobre a terra
Gente só morre para provar que viveu
Eu vi o não eu vi a bala matadeira
Eu vi o cão, fui nos óio e era eu

Repete I

Eu vi a lua na cacunda do cometa
Vi a zabumba e o fole a zabumbá
Eu vi o raio quando o, céu todo corisca
E o triângulo engulindo faiscá
Via galáctea branca na galáctea preta
Eu vi o dia e a noite se encontrá

(Tom Zé)
Obs: A palavra "parabelo" é uma derivação da palavra latina bellum, que significa "guerra". A palavra "parabelo" está presente na frase "Se vis pacem, parabellum", que significa "Se você quer paz, prepare-se para a guerra".
pelo que diz, mas nas escolhas que faz de textos e imagens:
A canção abaixo expõe uma distopia a partir de um olhar que projeta imagens de desconcerto, capaz de ver ou de antecipar um cenário escatológico. Aqui o sujeito se constitui pela observação atônita, interrogante sobre as coisas familiares que se tornam estranhas e sombrias:




Nos últimos exemplos, percebemos a preocupação do sujeito em exibir um ethos comprometido com o mundo que o cerca. Vale a pena pensar sobre como cada um equilibra o logos e o pathos para construir sua imagem como cancionista.











Publicada por Lilian à(s) 09:30 Sem comentários:
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      • Aula 3: a canção narrativa
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