Introdução: um poema de Hans Magnus
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| Tradução de Alberto Pimenta |
Orpheu: o mito do artista
Quando tudo faz lembrar
Guardar comigo um bem que se perdeu
Quando chove como hoje choveu
Repara bem meu bem que é para consolar
Toda dor que nada pode reparar nem poderá
Nem a luz do sol e a terra que nos faz
Girar girar
Então faz acreditar
Mesmo um segundo tudo vai voltar
Guardar comigo um bem que se perdeu
Quando chove como hoje choveu
Repara bem meu bem que é para consolar
Toda dor que nada pode reparar nem poderá
Nem a luz do sol e a terra que nos faz
Girar girar
Então faz acreditar
Mesmo um segundo tudo vai voltar
Mas se arrisca teu olhar pra trás
Encara sem receio o escuro e nunca mais
Depois vai seguindo assim sob esse céu azul sem fim
E você é onde se guardou em mim
A música
Não pude suportar a tua ausência, amor
Desisiti do mundo pra te resgatar
Só eu conheço a mágoa de ser quase
A súbita alegria e desencanto
Não penso com palavras resgatar você
Impossível nomear o que não está
Cantando todavia me aproximo
Da imagem que guardei no esquecimento
Eu desci dentro de mim
Onde nunca me flagrei
Era o mar ou era o rio
Esse fundo que eu olhei
Desarmado me perdi
no lugar que eu te deixei
Era o mar ou era um rio
Eu só sei que te sonhei...
Que morte sou e desconheço
De quem o brilho que disperso
E faço náufrago de mim?
Quem dera fosse uma fragata
E navegasse além da morte
E quem me visse, visse um ponto
O centro movel do horizonte...
Não pude suportar a tua ausência, amor
Tão pequeno é viver sem navegar
Cantando eu aprendo a ser sozinho
No canto até pareço ser um par
Desarmado eu me perdi
No lugar que te deixei
Era o mar ou era um rio
A imagem que eu olhei
Eu desci dentro de mim
Onde nunca me sonhei
Era o mar ou era um rio
Nesse fundo eu te encontrei
Para Michel Foucault, a arte acontece no exterior da subjetividade:
(MACHADO, Foucault, a filosofia e a literatura)
Para Maurice Blanchot:
“O Fora está em Blanchot diretamente associado a uma concepção de imaginário. A escritura é, para ele, a própria experiência da realidade imaginária. Nela, tudo se torna imagem, isto é, tudo se desdobra em sua outra versão (...) numa linguagem imaginária, o tempo num tempo imaginário e a realidade numa realidade imaginária. (...) Para Blanchot, a imagem não é um não-ser, mas uma outra possibilidade do ser, sua outra versão.
[Mas] ao invés de tornar o objeto novamente presente, de remeter direta e posteriormente a ele - o que segundo uma concepção clássica seria a função primeira da imagem -, a imagem, segundo o autor em questão, o deixa cada vez mais ausente. O objeto não nos é dado mas, ao contrário, afastado de nós. A característica da imagem seria, então, a de afirmar as coisas em sua desaparição, a de tornar presente a ausência que as funda.”
(Levy,Tatiana S., in: A Experiência do Fora)
"A poesia é, sobretudo, linguagem animada pela emoção, intensificada pelo ritmo e transfigurada pela metáfora."
(David Mourão Ferreira)
Pobre velha música!
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.
Recordo outro ouvir-te.
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.
Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.
João e Maria
Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?
(Sivuca e Chico Buarque - 1977)
"O conteúdo da poesia lírica é (...) o sujeito individual e, consequentemente, as situações e os objetos particulares, assim como a maneira pela qual a alma, com seus juízos subjetivos, suas alegrias, suas admirações, suas dores e suas sensações, toma consciência de si mesma no âmago deste conteúdo.
É desse modo que se impõe a ideia normalmente difundida, ainda hoje, de que a poesia lírica tem como vocação "exprimir" os sentimentos, os estados de espírito do sujeito na sua "interioridade" e em sua "profundidade", e não a de representar o mundo "exterior" e "objetivo". O lirismo se confunde com a poesia "pessoal" e mesmo "intimista", e privilegia, assim, a introspecção meditativa, o mais das vezes em tom melancólico, como indica a moda da elegia. A subjetividade lírica, por natureza introvertida, é essencialmente narcisista. (Hegel)
(COMBE, Dominique. A referência desdobrada: O sujeito lírico entre a ficção e a autobiografia. Rev. USP, São Paulo, n. 84, fev. 2010)
Eu não sei falar de amor
Os contadores sabem,
os profesores, os motoristas de taxi é só o que fazem
o homem com gel no cabelo esse certamente entende tudo do amor.
Eu não sei falar de amor.
Os escreventes sabem,
os despachantes, os astronautas (desses então nem se fala!)
Os operários no pátio da Ford repetem palavras de amor
Os militares preparam-se para a parada do amor
Os cegos decifram com a testa no braile do muro a palavra
AMOR
Eu não sei, eu não sei
Eu não
Eu não sei falar de amor
Nas cadeias moleculares
Na valsa do imperador
Nos olhos da avó mortinha
Da boca de quem me amou
De mim nenhuma palavra
Minha voz não se banhou
Nas águas da fonte do rio da palavra
AMOR
"Eu não sou da sua rua
Eu não sou o seu vizinho
Eu moro muito longe, sozinho
Estou aqui de passagem
Eu não sou da sua rua
Eu não falo a sua língua
Minha vida é diferente da sua
Estou aqui de passagem
Esse mundo não é meu
Esse mundo não é seu"
(Branco Mello e Arnaldo Antunes - 1991)
A linguagem lírica é desordenada, antissocial
(Tim Bernardes)
Eu ando muito insatisfeito
Nada me agrada mais
Eu não consigo ouvir um disco
Ou ver um filme e
Um livro eu claramente não vou ler
Vou procurar em todo canto até
Achar onde eu perdi
Minha vontade meu desejo, o meu prazer de conseguir
E a paciência que eu preciso para curtir
Eu tenho achado tudo chato, tudo ruim
Será que o chato aqui sou eu?
Será que fiquei viciado em novidade
E agora o tédio me enloqueceu?
Vou procurar em todo canto até
Achar onde eu perdi
Minha vontade meu desejo, o meu prazer de conseguir
E a paciência que eu preciso para curtir
Tudo está melhor do que parece
Eu olho e vejo tudo errado
Faz tempo que está tudo certo
O eu que ganha voz na lírica é um eu que se determina e se exprime como oposto ao coletivo, à objetividade; (...) o eu-lírico acabou perdendo, por assim dizer, essa unidade com a natureza, e agora se empenha em restabelecê-la, pelo animismo ou pelo mergulho no próprio eu.
(...) Por isso a lírica se mostra mais profundamente assegurada, em termos sociais, ali onde não fala conforme o gosto da sociedade, ali onde não comunica nada, mas sim onde o sujeito, alcançando a expressão feliz, chega a uma sintonia com a própria linguagem, seguindo o caminho que ela mesma gostaria de seguir.
( Adorno, in "Lírica e Sociedade" )
Esquece, não pensa mais
lenço azul a apertar
em branco o seu pensar
toda uma vida embaça o seu olhar
e andando vê passando
tudo aquilo que errou
hoje é dia 26
quem sabe vive outra vez
ela se foi sem eu ver
um beijo a flutuar
cabelos rosas gente a se abraçar
tudo alegre indo e vindo
tudo em volta a brilhar
esquece não pensa mais
um grito ele amou
lençóis e colchas vão se encontrar
não é mais dia 26
tudo começa outra vez
um, dois, três, 26
tudo isso já ficou
a paz é forte e ele vai viver
a menina em frente quente
o amor a fez girar
hoje é dia 36
um grito ele amou
lençóis e colchas vão se encontrar
não é mais dia 36
tudo começa outra vez....
esquece não pensa mais
Sérgio Dias / Arnaldo Babtista / Rita Lee / Johnny Dandurand
A função poética na lírica, faz do sujeito um vórtice de imagens, que se projetam e criam algo que já não é ele. A canção parece uma casa estranha que ele desenhou, a partir de estilhaços de lembranças, sentimentos e sensações:
POEIRA (Nuno Ramos/ Mariana Aydar) Poeira os olhos dentro d’água Poeira as coisas que eu mostrava O bicho, a casa, a ponte, a asma O teu brinquedo dentro d’água
Levanta os ó, lindos pro céu A rosa também sofre e chora Quem tem o que eu te dei agora Manhã da manhã lá fora
Licença pra me esquecer Licença que eu dei, sonhei Um rio sem eu, rio, ninguém Um rio que eu te dei
Não sei dizer, não sei...
A canção reflexiva
A canção procura, com todos os seus recursos textuais e sonoros, comover o ouvinte (do latim commovere, “mobilizar, mover conjuntamente”, formado de com-, “junto”, mais movere, “mexer, deslocar, mover").
A lírica move em nós a conivência frente a um sentimento diante do outro ou do mundo; a narrativa nos convida a seguir os passos ou atitudes de alguém numa sequência temporal.
Mas há um sabor da canção ainda distinto dessas duas modalidades: o cancionista é também uma antena, um intérprete do mundo, um formador de opinião. Ele está atento aos acontecimentos ao redor: observa, interpreta, constrói um pensamento, disserta.
E a canção é o seu meio de compartilhar uma visão da realidade.
Esse tipo de cancionista é um tanto filósofo, um tanto crítico, uma voz política.
E o poder de difusão de suas ideias é maior do que o de qualquer tratado filosófico, político, sociológico ou o que quer que seja.
É o que veremos com "Roda Morta", de Sérgio Sampaio.
O triste nisso tudo é tudo isso
Quer dizer, tirando nada, só me resta o compromisso
Com os dentes cariados da alegria
Com o desgosto e a agonia da manada dos normais.
Quer dizer, tirando nada, só me resta o compromisso
Com os dentes cariados da alegria
Com o desgosto e a agonia da manada dos normais.
O triste em tudo isso é isso tudo
A sordidez do conteúdo desses dias maquinais
E as máquinas cavando um poço fundo entre os braçais,
eu mesmo e o mundo dos salões coloniais.
A sordidez do conteúdo desses dias maquinais
E as máquinas cavando um poço fundo entre os braçais,
eu mesmo e o mundo dos salões coloniais.
Colônias de abutres colunáveis
Gaviões bem sociáveis vomitando entre os cristais
E as cristas desses galos de brinquedo
Cuja covardia e medo dão ao sol um tom lilás.
Gaviões bem sociáveis vomitando entre os cristais
E as cristas desses galos de brinquedo
Cuja covardia e medo dão ao sol um tom lilás.
Eu vejo um mofo verde no meu fraque
E as moscas mortas no conhaque que eu herdei dos ancestrais
E as hordas de demônios quando eu durmo
Infestando o horror noturno dos meu sonhos infernais.
E as moscas mortas no conhaque que eu herdei dos ancestrais
E as hordas de demônios quando eu durmo
Infestando o horror noturno dos meu sonhos infernais.
Eu sei que quando acordo eu visto a cara falsa e infame
como a tara do mais vil dentre os mortais
E morro quando adentro o gabinete
Onde o sócio o e o alcaguete não me deixam nunca em paz
como a tara do mais vil dentre os mortais
E morro quando adentro o gabinete
Onde o sócio o e o alcaguete não me deixam nunca em paz
O triste em tudo isso é que eu sei disso
Eu vivo disso e além disso
Eu quero sempre mais e mais.
(2x)
mais e mais
Eu vivo disso e além disso
Eu quero sempre mais e mais.
(2x)
mais e mais
Sérgio Sampaio
Por vezes, o compositor adota um ethos que representa uma realidade que só ele acessa, como se estivesse em posse de uma visão privilegiada, o que dá à canção um tom visionário:
Assista ao Grupo Corpo dançando esta canção aqui
Cego com cego
I
Eu vi o cego lendo a corda da viola
Cego com cego no duelo do sertão
Eu vi o cego dando nó cego na cobra
Vi cego preso na gaiola da visão
Pássaro preto voando pra muito longe
E a cabra cega enxergando a escuridão
Eu vi o pai eu vi a mãe eu vi a filha
Via novilha que é filha da novilhá
Eu vi a réplica da réplica da bíblia
Na invenção dum cantador de ciençá
Vi o cordeiro de deus num ovo vazio
Fiquei com frio te pedi pra me esquentá
Repete I
Eu via a luz da luz do preto dos seus olhos
Quando o sertão num mar de flor esfloresceu
Sol parabelo parabelo sobre a terra
Gente só morre para provar que viveu
Eu vi o não eu vi a bala matadeira
Eu vi o cão, fui nos óio e era eu
Repete I
Eu vi a lua na cacunda do cometa
Vi a zabumba e o fole a zabumbá
Eu vi o raio quando o, céu todo corisca
E o triângulo engulindo faiscá
Via galáctea branca na galáctea preta
Eu vi o dia e a noite se encontrá
(Tom Zé)
Eu vi o cego lendo a corda da viola
Cego com cego no duelo do sertão
Eu vi o cego dando nó cego na cobra
Vi cego preso na gaiola da visão
Pássaro preto voando pra muito longe
E a cabra cega enxergando a escuridão
Eu vi o pai eu vi a mãe eu vi a filha
Via novilha que é filha da novilhá
Eu vi a réplica da réplica da bíblia
Na invenção dum cantador de ciençá
Vi o cordeiro de deus num ovo vazio
Fiquei com frio te pedi pra me esquentá
Repete I
Eu via a luz da luz do preto dos seus olhos
Quando o sertão num mar de flor esfloresceu
Sol parabelo parabelo sobre a terra
Gente só morre para provar que viveu
Eu vi o não eu vi a bala matadeira
Eu vi o cão, fui nos óio e era eu
Repete I
Eu vi a lua na cacunda do cometa
Vi a zabumba e o fole a zabumbá
Eu vi o raio quando o, céu todo corisca
E o triângulo engulindo faiscá
Via galáctea branca na galáctea preta
Eu vi o dia e a noite se encontrá
(Tom Zé)
Obs: A palavra "parabelo" é uma derivação da palavra latina bellum, que significa "guerra". A palavra "parabelo" está presente na frase "Se vis pacem, parabellum", que significa "Se você quer paz, prepare-se para a guerra".
pelo que diz, mas nas escolhas que faz de textos e imagens:
pelo que diz, mas nas escolhas que faz de textos e imagens:
A canção abaixo expõe uma distopia a partir de um olhar que projeta imagens de desconcerto, capaz de ver ou de antecipar um cenário escatológico. Aqui o sujeito se constitui pela observação atônita, interrogante sobre as coisas familiares que se tornam estranhas e sombrias:
Nos últimos exemplos, percebemos a preocupação do sujeito em exibir um ethos comprometido com o mundo que o cerca. Vale a pena pensar sobre como cada um equilibra o logos e o pathos para construir sua imagem como cancionista.
Nos últimos exemplos, percebemos a preocupação do sujeito em exibir um ethos comprometido com o mundo que o cerca. Vale a pena pensar sobre como cada um equilibra o logos e o pathos para construir sua imagem como cancionista.
