segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Aula 2: a canção lírica


Introdução: um poema de Hans Magnus

Tradução de Alberto Pimenta
Tradução de Alberto Pimenta




Orpheu: o mito do artista





Quando tudo faz lembrar
Guardar comigo um bem que se perdeu
Quando chove como hoje choveu
Repara bem meu bem que é para consolar
Toda dor que nada pode reparar nem poderá
Nem a luz do sol e a terra que nos faz
Girar girar
Então faz acreditar
Mesmo um segundo tudo vai voltar
Mas se arrisca teu olhar pra trás
Encara sem receio o escuro e nunca mais
Depois vai seguindo assim sob esse céu azul sem fim
E você é onde se guardou em mim       
A música



Orpheu


Não pude suportar a tua ausência, amor
Desisiti do mundo pra te resgatar
Só eu conheço a mágoa de ser quase
A súbita alegria e desencanto

Não penso com palavras resgatar você
Impossível nomear o que não está
Cantando todavia me aproximo
Da imagem que guardei no esquecimento

Eu desci dentro de mim
Onde nunca me flagrei
Era o mar ou era o rio
Esse fundo que eu olhei

Desarmado me perdi 
no lugar que eu te deixei
Era o mar ou era um rio
Eu só sei que te sonhei...

Que morte sou e desconheço
De quem o brilho que disperso 
E faço náufrago de mim?

Quem dera fosse uma fragata
E navegasse além da morte
E quem me visse, visse um ponto
O centro movel do horizonte...

Não pude suportar a tua ausência, amor
Tão pequeno é viver sem navegar
Cantando eu aprendo a ser sozinho
No canto até pareço ser um par

Desarmado eu me perdi
No lugar que te deixei
Era o mar ou era um rio
A imagem que eu olhei

Eu desci dentro de mim
Onde nunca me sonhei
Era o mar ou era um rio
Nesse fundo eu te encontrei



A arte está fora do sujeito

Para Michel Foucault, a arte acontece no exterior da subjetividade:

A palavra literária se desenvolve, se desdobra, se reduplica a partir de si própria, não como interiorização, psicologização, mas como exteriorização, passagem para fora, afastamento, distanciamento, diferenciação, fratura, dispersão com relação ao sujeito, que ela apaga, anula, exclui, despossui, fazendo aparecer um espaço vazio: o espaço de uma linguagem neutra, anônima. O aparecimento ou reaparecimento do ser da linguagem é o desaparecimento do sujeito.” 
(MACHADO, Foucault, a filosofia e a literatura)

Para Maurice Blanchot:

“O Fora está em Blanchot diretamente associado a uma concepção de imaginário. A escritura é, para ele, a própria experiência da realidade imaginária. Nela, tudo se torna imagem, isto é, tudo se desdobra em sua outra versão (...) numa linguagem imaginária, o tempo num tempo imaginário e a realidade numa realidade imaginária. (...) Para Blanchot, a imagem não é um não-ser, mas uma outra possibilidade do ser, sua outra versão.

[Mas] ao invés de tornar o objeto novamente presente, de remeter direta e posteriormente a ele - o que segundo uma concepção clássica seria a função primeira da imagem -, a imagem, segundo o autor em questão, o deixa cada vez mais ausente. O objeto não nos é dado mas, ao contrário, afastado de nós. A característica da imagem seria, então, a de afirmar as coisas em sua desaparição, a de tornar presente a ausência que as funda.” 
(Levy,Tatiana S., in: A Experiência do Fora)

"A poesia é, sobretudo, linguagem animada pela emoção, intensificada pelo ritmo e transfigurada pela metáfora."
(David Mourão Ferreira)


Pobre velha música!
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.

Recordo outro ouvir-te.
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.

Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.


(Fernando Pessoa)





João e Maria
 
Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?

(Sivuca e Chico Buarque - 1977)


A canção lírica


"O conteúdo da poesia lírica é (...) o sujeito individual e, consequentemente, as situações e os objetos particulares, assim como a maneira pela qual a alma, com seus juízos subjetivos, suas alegrias, suas admirações, suas dores e suas sensações, toma consciência de si mesma no âmago deste conteúdo.

É desse modo que se impõe a ideia normalmente difundida, ainda hoje, de que a poesia lírica tem como vocação "exprimir" os sentimentos, os estados de espírito do sujeito na sua "interioridade" e em sua "profundidade", e não a de representar o mundo "exterior" e "objetivo". O lirismo se confunde com a poesia "pessoal" e mesmo "intimista", e privilegia, assim, a introspecção meditativa, o mais das vezes em tom melancólico, como indica a moda da elegia. A subjetividade lírica, por natureza introvertida, é essencialmente narcisista. (Hegel)

(COMBE, Dominique. A referência desdobrada: O sujeito lírico entre a ficção e a autobiografia. Rev. USP, São Paulo, n. 84, fev. 2010)





Eu não sei falar de amor
Eu não sei falar de amor.
Os contadores sabem,
os profesores, os motoristas de taxi é só o que fazem
o homem com gel no cabelo esse certamente entende tudo do amor.

Eu não sei falar de amor.
Os escreventes sabem,
os despachantes, os astronautas (desses então nem se fala!)

Os operários no pátio da Ford repetem palavras de amor
Os militares preparam-se para a parada do amor
Os cegos decifram com a testa no braile do muro a palavra
AMOR

Eu não sei, eu não sei
Eu não
Eu não sei falar de amor

Nas cadeias moleculares
Na valsa do imperador
Nos olhos da avó mortinha
Da boca de quem me amou
De mim nenhuma palavra
Minha voz não se banhou
Nas águas da fonte do rio da palavra
AMOR









"Eu não sou da sua rua
Eu não sou o seu vizinho
Eu moro muito longe, sozinho
Estou aqui de passagem

Eu não sou da sua rua
Eu não falo a sua língua
Minha vida é diferente da sua
Estou aqui de passagem
Esse mundo não é meu
Esse mundo não é seu"

(Branco Mello e Arnaldo Antunes - 1991)



A linguagem lírica é desordenada, antissocial



Melhor Do Que Parece 
(Tim Bernardes) 

Eu ando muito insatisfeito 
Nada me agrada mais 
Eu não consigo ouvir um disco 
Ou ver um filme e 
Um livro eu claramente não vou ler 

Vou procurar em todo canto até 
Achar onde eu perdi 
Minha vontade meu desejo, o meu prazer de conseguir 
E a paciência que eu preciso para curtir
 
Eu tenho achado tudo chato, tudo ruim 
Será que o chato aqui sou eu?
Será que fiquei viciado em novidade 
E agora o tédio me enloqueceu? 

Vou procurar em todo canto até 
Achar onde eu perdi 
Minha vontade meu desejo, o meu prazer de conseguir 
E a paciência que eu preciso para curtir

Tudo está melhor do que parece 
Eu olho e vejo tudo errado 
Faz tempo que está tudo certo


O eu que ganha voz na lírica é um eu que se determina e se exprime como oposto ao coletivo, à objetividade; (...) o eu-lírico acabou perdendo, por assim dizer, essa unidade com a natureza, e agora se empenha em restabelecê-la, pelo animismo ou pelo mergulho no próprio eu.

(...) Por isso a lírica se mostra mais profundamente assegurada, em termos sociais, ali onde não fala conforme o gosto da sociedade, ali onde não comunica nada, mas sim onde o sujeito, alcançando a expressão feliz, chega a uma sintonia com a própria linguagem, seguindo o caminho que ela mesma gostaria de seguir.


( Adorno, in "Lírica e Sociedade" )







Dia 36



Esquece, não pensa mais
lenço azul a apertar
em branco o seu pensar
toda uma vida embaça o seu olhar
e andando vê passando
tudo aquilo que errou
hoje é dia 26
quem sabe vive outra vez
ela se foi sem eu ver
um beijo a flutuar
cabelos rosas gente a se abraçar
tudo alegre indo e vindo
tudo em volta a brilhar
esquece não pensa mais
um grito ele amou
lençóis e colchas vão se encontrar
não é mais dia 26
tudo começa outra vez
um, dois, três, 26
tudo isso já ficou
a paz é forte e ele vai viver
a menina em frente quente
o amor a fez girar
hoje é dia 36
um grito ele amou
lençóis e colchas vão se encontrar
não é mais dia 36
tudo começa outra vez....
esquece não pensa mais


Sérgio Dias / Arnaldo Babtista / Rita Lee / Johnny Dandurand



A função poética na lírica, faz do sujeito um vórtice de imagens, que se projetam e criam algo que já não é ele. A canção parece uma casa estranha que ele desenhou, a partir de estilhaços de lembranças, sentimentos e sensações:



POEIRA (Nuno Ramos/ Mariana Aydar) Poeira os olhos dentro d’água Poeira as coisas que eu mostrava O bicho, a casa, a ponte, a asma O teu brinquedo dentro d’água
Levanta os ó, lindos pro céu A rosa também sofre e chora Quem tem o que eu te dei agora Manhã da manhã lá fora
Licença pra me esquecer Licença que eu dei, sonhei Um rio sem eu, rio, ninguém Um rio que eu te dei
Não sei dizer, não sei...



A canção reflexiva

A canção procura, com todos os seus recursos textuais e sonoros, comover o ouvinte (do latim commovere, “mobilizar, mover conjuntamente”, formado de com-, “junto”, mais movere, “mexer, deslocar, mover").

A lírica move em nós a conivência frente a um sentimento diante do outro ou do mundo; a narrativa nos convida a seguir os passos ou atitudes de alguém numa sequência temporal.

Mas há um sabor da canção ainda distinto dessas duas modalidades: o cancionista é também uma antena, um intérprete do mundo, um formador de opinião. Ele está atento aos acontecimentos ao redor: observa, interpreta, constrói um pensamento, disserta.

E a canção é o seu meio de compartilhar uma visão da realidade.

Esse tipo de cancionista é um tanto filósofo, um tanto crítico, uma voz política.

E o poder de difusão de suas ideias é maior do que o de qualquer tratado filosófico, político, sociológico ou o que quer que seja.

É o que veremos com  "Roda Morta", de Sérgio Sampaio.






O triste nisso tudo é tudo isso
Quer dizer, tirando nada, só me resta o compromisso
Com os dentes cariados da alegria
Com o desgosto e a agonia da manada dos normais.
O triste em tudo isso é isso tudo
A sordidez do conteúdo desses dias maquinais
E as máquinas cavando um poço fundo entre os braçais,
eu mesmo e o mundo dos salões coloniais.
Colônias de abutres colunáveis
Gaviões bem sociáveis vomitando entre os cristais
E as cristas desses galos de brinquedo
Cuja covardia e medo dão ao sol um tom lilás.
Eu vejo um mofo verde no meu fraque
E as moscas mortas no conhaque que eu herdei dos ancestrais
E as hordas de demônios quando eu durmo
Infestando o horror noturno dos meu sonhos infernais.
Eu sei que quando acordo eu visto a cara falsa e infame
como a tara do mais vil dentre os mortais
E morro quando adentro o gabinete
Onde o sócio o e o alcaguete não me deixam nunca em paz
O triste em tudo isso é que eu sei disso
Eu vivo disso e além disso
Eu quero sempre mais e mais.
(2x)
mais e mais

Sérgio Sampaio


Por vezes, o compositor adota um ethos que representa uma realidade que só ele acessa, como se estivesse em posse de uma visão privilegiada, o que dá  à canção um tom visionário:


Assista ao Grupo Corpo dançando esta canção aqui

Cego com cego

  

I
Eu vi o cego lendo a corda da viola
Cego com cego no duelo do sertão
Eu vi o cego dando nó cego na cobra
Vi cego preso na gaiola da visão
Pássaro preto voando pra muito longe
E a cabra cega enxergando a escuridão

Eu vi o pai eu vi a mãe eu vi a filha
Via novilha que é filha da novilhá
Eu vi a réplica da réplica da bíblia
Na invenção dum cantador de ciençá
Vi o cordeiro de deus num ovo vazio
Fiquei com frio te pedi pra me esquentá

Repete I

Eu via a luz da luz do preto dos seus olhos
Quando o sertão num mar de flor esfloresceu
Sol parabelo parabelo sobre a terra
Gente só morre para provar que viveu
Eu vi o não eu vi a bala matadeira
Eu vi o cão, fui nos óio e era eu

Repete I

Eu vi a lua na cacunda do cometa
Vi a zabumba e o fole a zabumbá
Eu vi o raio quando o, céu todo corisca
E o triângulo engulindo faiscá
Via galáctea branca na galáctea preta
Eu vi o dia e a noite se encontrá

(Tom Zé)
Obs: A palavra "parabelo" é uma derivação da palavra latina bellum, que significa "guerra". A palavra "parabelo" está presente na frase "Se vis pacem, parabellum", que significa "Se você quer paz, prepare-se para a guerra".
pelo que diz, mas nas escolhas que faz de textos e imagens:
A canção abaixo expõe uma distopia a partir de um olhar que projeta imagens de desconcerto, capaz de ver ou de antecipar um cenário escatológico. Aqui o sujeito se constitui pela observação atônita, interrogante sobre as coisas familiares que se tornam estranhas e sombrias:




Nos últimos exemplos, percebemos a preocupação do sujeito em exibir um ethos comprometido com o mundo que o cerca. Vale a pena pensar sobre como cada um equilibra o logos e o pathos para construir sua imagem como cancionista.











domingo, 8 de setembro de 2024

A Letra na Canção

Objetivo do módulo: 

OBJETO: a canção como arte, como objeto estético; não como produto mercadológico.

A letra em FOCO: subsídios para perceber / criar a letra como forma poética em suas particularidades.

METODOLOGIA: análise de letras da MPB, dando a perceber seus recursos expressivos, suas estruturas e efeitos retóricos, a partir de  escolhas formais e valores que se querem veicular.

Em suma: um estudo ethopoético da canção brasileira


PRELIMINARES

1. A escolha do ethos

Leiamos este excerto de Maingueneau:

Todo discurso, oral ou escrito, supõe um ethos: implica uma certa representação do corpo do seu responsável, do enunciador que se responsabiliza por ele. Sua fala participa de um comportamento global (uma maneira de se mover, de se vestir, de entrar em relação com o outro...). Atribuímos a ele, dessa forma, um caráter, um conjunto de traços psicológicos (jovial, severo, simpático...) e uma corporalidade (um conjunto de traços físicos e indumentários). “Caráter” e “corporalidade” são inseparáveis, apoiam-se em estereótipos valorizados ou desvalorizados na coletividade, em que se produz a enunciação. (...) O ethos não deve, portanto, ser isolado dos outros parâmetros do discurso, pois contribui de maneira decisiva para sua legitimação. (Termos-chave da Análise do Discurso. Belo Horizonte: UFMG, 2006)

O Ethos confere a credibilidade do orador ou escritor. Para envolver a audiência em um tema específico, a pessoa que apresenta a informação deve primeiro se estabelecer como alguém confiável, ou como alguém que tenha muita experiência no assunto. Isso é o que define, na figura que enuncia, a sua ética .

Mas atenção! assumir um ethos na voz é idêntico ao que faz um ator, quando encarna uma personagem. É preciso aprender a fingir!

Ethos apela para:
  • A identidade do sujeito que fala
  • Posicionamento axiológico (valores)
  • Consistência
  • Percepção de confiabilidade





Dor Elegante

Um homem com uma dor
É muito mais elegante

Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Andasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, edens, analgésicos
Não me toquem nessa dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

(Itamar Assumpção e Paulo Leminski)





Quando você menos esperaEla chega (quando você menos espera)(Ela chega)Fazendo do teu coração (quando você menos espera)O que bem ela fizer (ela chega, fazendo do teu coração)(O que bem ela fizer)
Nem venha querendo você se espantarNão, não, não, não, não (o que bem ela fizer)Nem venha querendo você se espantarNão, não, não, não, não
Nem venha querendo você se espantarNão, não, não, não, nãoNem venha querendo você se espantarNão, não, não, não, não
Nem venha querendo você se espantar (quando você)(Menos espera) Não, não, não, não, nãoEla (nem venha querendo você se espantar, quando você)
Menos espera, ela toca(Quando você) No fundo do teu coração(Menos espera) Assim como uma mulher(Ela toca) No fundo do teu coração
Assim como uma mulher(No fundo do teu coração, nem venha querendo você se espantar)(Não, não, não, não, não) Assim como uma mulher
Nem venha querendo você se espantarNão, não, não, não, nãoNem venha querendo você se espantarNão, não, não, não, não
Nem venha querendo você se espantarNão, não, não, não, nãoNem venha querendo você se espantarNão, não, não, não, não
Nem venha querendo você se espantarNão, não, não, não, não






Umbigo

Umbigo, meu nome é umbigo Gosto muito de conversar comigo Umbigo, meu nome é espelho Não dou ouvidos, nem peço conselhos
Umbigo, meu nome é certeza Só é real o que convém a realeza Umbigo, meu nome é verdade Sou o dono do mundo e o rei da cidade Umbigo, meu nome é umbigo... Umbigo, meu nome é umbigo... Eu sou mais eu! Dê cá um close no narciso Umbigo, meu nome é umbigo Me peça tudo, só não peça para ter juízo Umbigo, meu nome é umbigo Não sei de nada além de mim: o amor é cego
Umbigo, meu nome é umbigo Vivo na sombra e água fresca do meu ego Eu vou andando, e quem quiser que acerte o passo Faça o que eu digo, e eu me concentro no que faço Se um dia o mundo pegar fogo eu salto antes E dou adeus a seis bilhões de figurantes
Umbigo, meu nome é umbigo Quem está contra mim também está comigo Umbigo, meu nome é guru Eu caí do céu foi pra mandar em tu
Umbigo meu nome é umbigo O mundo perde o freio, e eu nem ligo Comigo só não vai quem já morreu Umbigo, meu nome sou eu

(Lenine)



Em entrevista à FSP, sobre o lançamento de Falange Canibal, o compositor comenta a faixa:

Atacando temas que margeiam a vaidade e o ego de sua classe (e de outras), ele se apressa em se posicionar, entre ofensivo e defensivo: "Várias pessoas podem vestir a carapuça do "Umbigo", mas eu fiz essa canção só para mim. Isso vem de meu pai socialista, que muitas vezes me disse: "Cuidado, olha o que você está fazendo". É um auto-exorcismo".

Diz que o exorcismo funciona e vai além da peça de retórica de afirmar o ego negando-o. "Funciona. Lidar com exibição o artista lida, sempre. Eu lido, mas atenção, vou só até a página oito. É verdade que uma canção que fala do ego de cada um é um discurso prepotente, um subterfúgio. Não me acho egocêntrico, mas egoísta eu sou, sim. O ego é um ícone, estou dentro dele, não estou escapando por essa canção."


2. O apelo do Pathos
O pathos acessa as emoções e as crenças profundamente arraigadas do público para atraí-las ao assunto. Pathos muitas vezes faz com que o público se sinta como se tivesse uma participação pessoal na informação que está sendo fornecida e é frequentemente o catalisador que os leva à ação.
Pathos apela para:

  • Emoções e sentimentos
  • Preconceitos 
  • Sonhos
  • Motivações



Atrás da porta

     (Chico Buarque / Francis Hime)

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus,
Juro que não acreditei
Eu te estranhei, me debrucei
Sobre o teu corpo e duvidei
E me arrastei, e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
Nos teus pelos, teu pijama
Nos teus pés, ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua
Até provar que ainda sou tua
(Chico Buarque)



Sujeito de sorte

Presentemente, eu posso me
Considerar um sujeito de sorte
Porque apesar de muito moço
Me sinto são, e salvo, e forte

E tenho comigo pensado
Deus é Brasileiro e anda do meu lado
E assim já não posso sofrer
No ano passado

Tenho sangrado demais
Tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri
Mas esse ano eu não morro

Tenho sangrado demais
Tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri
Mas esse ano eu não morro

Ano passado eu morri
Mas esse ano eu não morro
Ano passado eu morri
Mas esse ano eu não morro
(Antonio Carlos Belchior)

3. A força argumentativa do Logos

Logos usa lógica, raciocínio, evidência e fatos para apoiar um argumento. O logos atrai o lado mais racional das mentes do público e fornece suporte para o assunto. Estratégias de logos podem ser usadas para fortalecer o impacto que o pathos tem sobre o público.

Logos utiliza:

  • Evidência
  • Testemunho
  • Raciocínio lógico
  • Estatísticas e Dados




Fora da ordem

Vapor barato, um mero serviçal do narcotráfico
Foi encontrado na ruína de uma escola em construção
Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína
Tudo é menino e menina no olho da rua
O asfalto, a ponte o viaduto ganindo pra lua
Nada continua
E o cano da pistola que as crianças mordem
Reflete todas as cores da paisagem da cidade que é muito
Mais bonita e
Muito mais intensa do que no cartão postal
Alguma coisa está fora da ordem
Fora da nova ordem mundial...
Escuras coxas duras tuas duas de acrobata mulata
Tua batata da perna moderna, a trupe intrépida em que fluis
Te encontro em Sampa de onde mal se vê quem sobe ou desce a rampa
Alguma coisa em nossa transa é quase luz forte demais
Parece pôr tudo à prova, parece fogo, parece, parece paz
Parece paz
Pletora de alegria, um show de Jorge Benjor dentro de nós
É muito, é grande, é total
Alguma coisa está fora da ordem
Fora da nova ordem mundial...
Meu canto esconde-se como um bando de Ianomâmis na floresta
Na minha testa caem, vêm colocar-se plumas de um velho cocar
Estou de pé em cima do monte de imundo lixo baiano
Cuspo chicletes do ódio no esgoto exposto do Leblon
Mas retribuo a piscadela do garoto de frete do Trianon
Eu sei o que é bom
Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem
Apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final
Alguma coisa está fora da ordem
Fora da nova ordem mundial...

(Caetano Veloso)


O cancionista se encontra entre dois extremos, a saber:

Performance ---------------------------------------------------  Pensamento
Imagem --------------------------------------------------------- Ideia
Sonoridade -----------------------------------------------------  Abstração



Canção e fingimento

Origens da canção
As origens da canção, em língua portuguesa, se confundem com as origens da poesia e da própria língua. Tudo começa no Trovadorismo: desde o século XII,  a arte da canção era arte de trovar.
Trovar < fr. "achar"
O étimo aponta para uma técnica que conta com certa dose de improviso, de intuição.


Nunca se sabe como ou por onde começa  a feitura da canção: se por uma ideia, por uma frase musical, pelo refrão, pela última estrofe... Trata-se de um achamento, algo que depende de uma conexão com uma força criativa - essa ideia teria originado o mito da musa inspiradora.

A canção nasce de uma necessidade de dizer algo. Para que se diga, é necessário adotar o fingimento de uma situação que engendra a fala.

A cantiga de amigo é uma tradição surgida de uma carência essencial diante do abandono.
Esse mote serviu à canção popular de todos os tempos:


A cantiga abaixo expressa a situação de fragilidade em que se encontra o ser apaixonado que sofreu
abandono. É a situação de quem está entregue à própria sorte:


    

 Ai Deus, se sab'ora meu amigo
com'eu senheira estou em Vigo!
       E vou namorada...

Ai Deus, se sab'ora meu amado

5com'eu em Vigo senheira manho!
       E vou namorada...
  
Com'eu senheira estou em Vigo

e nulhas gardas nom hei comigo!
       E vou namorada...
  
10Com'eu senheira em Vigo manho
e nulhas gardas migo nom traigo!
       E vou namorada...
  
E nulhas gardas nom hei comigo,

ergas meus olhos que choram migo!
15       E vou namorada...
  
E nulhas gardas migo nom traigo,
ergas meus olhos que choram ambos!
       E vou namorada...





O sentido trágico da canção

Arte que tenta abarcar dois mundos:
  • um mundo mais corporal, intuitivo - também matemático - da música;
  • e o mundo das ideias que a composição dispõe, agrupa e costura, em direção à produção de um sentido

Canção: uma arte dialética por excelência

Música ----------------------------- Palavra
Intuitiva, corporal --------------- pensamento, racionalidade
Sentido (vago, ilimitado) -------- limite do significado
Sensação --------------------------- ideia

A essência infinita da música não cabe no espaço do poema.
Acometido pela musicalidade como sensação pura, o poeta soma o melódico ao harmônico, descreve.
A cadeia temporal-melódica suscita imagens e, já no papel, a sensação procura pelo nome.
Neste percurso do infinito ao limitado, o nome debate-se para transcender seus limites, quer-se vasto, da vastidão do símbolo ou da metáfora mais (im)precisa.


A poesia, no caso, a canção, é uma busca compensatória dessa nossa involuntária divisão, um sentido trágico dado ao nome.
Sua busca de significação alude ao velho e humano conflito entre Natureza e Cultura; entre instinto e palavra. Uma busca de retorno àquela através desta, quando esta só mais separa.

Comparem-se as duas composições que se seguem:




Alguém cantando

Alguém cantando longe daqui
Alguém cantando longe, longe
Alguém cantando muito
Alguém cantando bem
Alguém cantando é bom de se ouvir
Alguém cantando alguma canção
A voz de alguém nessa imensidão
A voz de alguém que canta
A voz de um certo alguém
Que canta como que pra ninguém
A voz de alguém quando vem do coração
De quem mantém toda a pureza
Da natureza
Onde não há pecado nem perdão



Ela canta, pobre ceifeira,

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões para cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente está pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa